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Gotta Keep Going On - Jozi. Ventos Cardíacos X Xóõ. Um cd excepcional desta excepcional musa da MPB. O Novo Aeon Raul Seixas,

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Stryper - I Believe In You. Debra Michaels - How Do i Live. Rising Sun - Sunshyme. Julio Iglesias - Crazy. Led Zeppelin - Stairway To Heaven. Warrant - Heaven. Debbie Gibson - Electric Youth. Luna - Alessandro Safina. My Friend - Groove Armada. Ray Charles Feat. Ti Amo. Horizontes-A Cor Do Som. Maria Bethânia - Verdades e Mentiras.

E Poucos Anos. No Tempo Dos Quintais. Peito Vazio. Over My Shoulder. Julia Says. A Kind of Christmas Card.

Enrique Iglesias feat. Sammy Adams -Finally Found You. Esqueça Forget Him. Poeira De Estrelas. Quando Chove. Into My Life. A Matter Of Feeling. I've Been In Love Before. Silent Morning. All My Life. Imitation Of Life - R. Só Pra O Vento. Sonho Blue. À Primeira Vista. The Captain Of Her Heart. Something About You. The Rockafeller Skank. On The Horizon. Stuck You. Just A Bit Of Chaos. Designated Drinker. Big Yellow Taxi.

Tema De Ana Maria. Chei Chovorriho. Abri A Porta. Sans Amour - Gilbert. If Wishes Come True. Por Amor - Zé Maria. Yiri Yiri Boum - Dois Africanos. Daydream In Blue - i Monster. Melim - Dois Corações.

Head Over Heels - Alain Clark. Let Go - Mia Rose. All The Lovers - Kylie Minogue. Bon Jovi - Always. Wet Wet Wet - Goodnight Girl. This Love - Bad Company. Never Gonna Leave You - Subject. Robin Williams - Angels.

T-Shirt - You Sexy Thing. Me Chama Que Eu Vou. Sede dos Marujos. Adarghal The Blind in Spirit - Abdelli. Urga - Badema. Love in the Afternoon. Yerushlaim Shel Zahav. Direto no Olhar-Rosana. Lua E Flor-oswaldo Montenegro. Tunai - Sobrou Pra Mim. Climie Fischer - Love Changes Everything. Adele - Someone Like You. Lady Antebellum - Just Kiss. Babilônia Maravilhosa. Save Me Now. Jason Mraz - 93 Million Miles. All Around The World.

Don't Close Your Eyes Tonight. With Or Without You. Take In. Rhythm Is A Dancer. The One. Mama's Always On Stage. Under The Bridge. For Your Babies. Over You. I Get Weak. Free As A Bird. Pink Cadillac. Set Adrift On Memory Bliss. Theme From 'dying Young'. Papa Don't Preach. Glory Of Love. Dancin' Days Medley. Follow you follow me. Nosso Amor É Ouro. Somewhere Over The Rainbow. Disease - Matchbox Twenty;.

Stars - The Cranberries. The Reason - Hoobastank. What Is Love. O Sonho Acabou. Uh La La La. We Live. Piano Piano In The Navy. I Want Your Love. Just To See Her. Loving You Again. Give Me All Night. Teach Me Tiger. Quisera Ser. Fora Da Lei. Per Amore. É Gonzaguinha. Chora, Me Liga. Estranha Loucura - Alcione. You Gotta Be. Run, Baby, Run. Bem Querer. Dono Dos Teus Olhos. Encontros E Despedidas. Simone -Ângela. Boca Livre - Quem Tem a Viola.

Toquinho e Maria Creuza Veja Você. Mr Vanderbilt. Tocando Em Frente - Maria Bethânia. Someday - Glass Tiger. True Colors-Cyndi Lauper. Darkness And Light- John Legend. Essa Mina É Louca - Anitta ft. Chico Buarque. Eu Sem Você - Monique Kessous. Lembra - Luiza Possi. Hanging Loose - Ina Forsman. Me Abraça - Anavitória. Ginga - Iza. No Roots - Alice Merton. Mala Pronta [Live]. Partido Alto.

Fabio Castro Diego Logic Remix. Adoro - Léo Jaime. Preciso Dizer Que te Amo - Marina. O Beco - Os Paralamas do Sucesso.

Amor Bandido - Joanna. Ronda - Emílio Santhiago. Amor e Bombas - Eduardo Dusek. Gillette - Short Dick Man. Bill Power - I Swear. Peter Valentine - Drop On By. Gloria Estefan - Everlasting Love.

Gordon Lightfoot - Sundown. You're The Voice - John Farham. Stay The Night - Benjamin Orr. Foolish Pride - Sasha. Loreena Mckennitt - The Mummer's Dance. Cher - Love Hurts. Robert Thames - Tenderness. White - Caribe. Mistérios da Meia-Noite. Santa Fé. Roque Santeiro.

Mate-me Depressa. Tudo em Você. Desert Rose - Sting. Miracle - Jazzy. Deus Te Proteja De Mim-wando. Febre Tropical-Lucinha Lins. Doce Prazer-walter Montezuma. De Corpo Inteiro-Jane Duboc.

Bem que se Quis-Marisa Monte. Jane Duboc - Sonhos. Level 42 - Lessons In Love. Joel Paul Drade - Magic Emotions. Basia - Promises. Star - Watch Your Step.

Danny Wilson - Mary s Prayer. Tabatha Fher - Evil Diva. Quincy Coleman - Give It Away. Just Like You Do. Eu Só Quero Ser Feliz. Independência e Vida. Candi Staton - Young hearts run free. That's The Trouble - Grace Jones. Steve Maclean-sweet Sounds Oh! Beautiful Music. You Got Me Dancing. Conquistador Barato.

You've Got Personality. Jailhouse Rock. Self Pity. Sou Maluca - Dolls. Vou Mais Longe - Banda Vega. Ela é a Tal - Paula Lima. Set Me Free. I have to say I love you in a song. Michael Buble-Home. Ilha De Mel. Beijo Partido.

Visions Of Love. Bitter Fruit. Lost In Emotion. On The Run. The Sweetest Taboo. Diguidigit Up. Without Your Love. Yazoo - Nobody's Diary. Crying Overtime. Il Faut Savoir. Lion In My Heart. Caminando Por La Calle. Meu Ninho. Seja Mais Você. Chico Treva.

Estranha Dependência. Stuck With You. Only A Step Away. Right Between The Eyes. How Do You Stop? Lady [You Bring Me Up]. Você, O Amor E Eu. Rio Negro E Solimões. Lazza E Deluqui. I Turn To You. I'll Be Holding On. Where Are You. Olha o Que o Amor Me Faz. Amor De Índio. Cantare E' D' Amore. Truly, Madly, Deeply. Vater Unser - E Nomine. House Of Love. Donna Summer - Breakaway. Doce Pecado. Eu Queria Ter Uma Bomba. Tipo One Way.

The Real Thing. Stuck On You. When Doves Cry. In My Time. I'm Living My Own Life. Sleep With Me Tonight. I'll Always Love You.

Les Chemins D'amour. Orinoco Flow. Specially For You. Like A Child. American Bars. Sweet Freedom. Invisible Touch. Colors On My Blues. New York-rio-tokyo. Bad Boy [Shep Pettibone Remix]. Manic Monday. Self Control. In Assenza Di Te. Amor Maior. Mais Uma Vez.

Another Day In Paradise. Heart Of Glass. What A Fool Believes. Bridge Over Troubled Water. I Who Have Nothing.

Oh no, there's been an error

Once Upon A Man. One More Minute. No One. Lost Without U. Gimme More. Lucky [With Colbie Caillat]. Already Gone. The Fear [I Don't Know]. Funky Bahia [With Will. Fell In Love. Don't Make Me Wait. I Never Fall In Love. Bye Bye Love. Sultans Of Swing. Magic Lady. Dance With You. Love Takes Time. One To One.

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Hot Blood. I Love Rock N' Roll. Milk Way. We'll Be Together. Love's Closing In. Secret Agent Man. Never My Love. Hurdy Gurdy Man. Mudança Dos Ventos. Brasil - Tema de Abertura. Terra Dourada. Pense E Dance. Pontos Cardeais. A Sombra Da Partida. Todo O Sentimento. Isto Aqui O Que É.

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Faz Parte Do Meu Show. As Palavras. Seu Corpo - Simone. Você Perde - Kiko Zambianchi. Rio Sinal Verde - Junior -. Ready To Go Home. As - George Michael.

Everything But The Girl. Profecias [Fim Do Mundo]. Maria Creuza - Frenesi. Tendo A Lua. Put Your Records On. Delírio Dos Mortais. Sublime Amor. Tô Voltando. Força Estranha. Meu Nome É Noite Vadia. Horizonte Aberto. Marcos Valle - o Beato. Osmar Milito Q.

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Forma - Mandato. Forma - Corpo Sano. Feito Para Dançar - Tim Maia. Nosso Louco Amor. Foi Para O Seu Bem. Claudio Nucci -Quero Quero -. Só De Brincadeira - Sandra. Orora Analfabeta — Exaltasamba. Primeiros Erros. Preciso Dizer Que Te Amo. Admito Que Perdi. Let Me Be You Diva. A Montanha E A Chuva. Coral Som Livre - o Bem Amado. Décima Vez. Stayn' Alive. Eu Quero, Eu Gosto - Jamz. Quarteto Em Cy - Sapato Velho. Tô Sergio. Tributo à Sérgio Dias Arte de capa feita por Paulo Lima PP graphix.

Ouça no SoundCloud. Ventos Cardíacos Tomati Sabor Caballero Marcelo Gagliotti Anjos do Sul Marcos Mamuth Senha dos arquivos: brrock. Para fazer contato clique AQUI.

Se você encontrar algum link quebrado, me avise por favor. Armazém do Rock Nacional. Como você avalia o blog? Deixe seu recado! Total de acessos. Conheça algo novo! Apenas que é preciso saber ler os jornais de modo psicanalítico.

Ainda hoje parece aos jornalistas mais voluptuoso extrair uma farpa de uma fala minha contra Chico ou vice-versa do que examinar o sentido de toda essa dificuldade ter resultado num crescimento da produtividade dele como da nossa - além de um amadurecimento e aprofundamento da nossa amizade.

Chico foi, em todas as oportunidades, o mais elegante, discreto e generoso de todos os nossos colegas. Conheço-o bem e sempre soube que é isso que ele é, além de um virtuoso das rimas e dos ritmos verbais: um sujeito excepcionalmente elegante, discreto e generoso.

Toda energia precisava precisa estar dedicada a empobrecer as relações entre os "grandes". Em 68, Augusto mostrou-se impressionado com as declarações arrancadas por um repórter a Paul McCartney de entusiasmo por Stockhausen. Eles mesmos nós Sendo que, no Brasil, o crescimento desse mercado significa, em si mesmo, uma conquista nacional. Ustvólskaia etc. E, me diz Arto, só falam nisso. O que pensar? Ao ver quadros de Monet, meu filho de cinco anos comentou que eles eram "muito malfeitos se vistos de perto", embora "parecessem bem-feitos" se olhados à distância.

E essa força, que para mim significa vida, eu a levo em grande parte aos poetas concretos. Sem falar no fato de que eles, em seu resgate do barroco e sua redescoberta de figuras mais ambiciosas e inventivas do que muitas das que ocupam tradicionalmente a corrente central da história da literatura brasileira, enfatizaram, como disse o historiador norte-americano Richard M.

Meu encontro efetivo com esse autor se deu através da montagem de uma peça sua, inédita desde os anos 30, pelo grupo de teatro Oficina. A montagem me encantara. O estilo do diretor José Celso Martinez Corrêa era ao mesmo tempo mais tradicional e mais sutil do que o de Boal.

Fui ver O rei da vela - a peça de Oswald de Andrade que o Oficina tirava de um ostracismo de trinta anos - cheio de grande expectativa.

Zé Celso se tornou, aos meus olhos, um artista grande como Glauber. O canhestro em Glauber muitas vezes intensifica a mensagem estética - Zé Celso produzia tais intensificações em acordo íntimo com seu gosto e sua capacidade de controle dos meios. A peça continha os elementos de deboche e a mirada antropológica de Terra em transe.

O segundo ato era uma chanchada: um painel berrantemente colorido representava em traços meio cubistas, meio infantis, a baía de Guanabara. O terceiro ato era em tom de ópera. Heloisa de Lesbos - que no primeiro ato aparecera de terno branco e fumando por uma longa piteira, e no segundo num maiô futurista prateado que fazia a atriz Itala Nandi parecer um robô do filme Metrópolis, uma Barbarella, uma Modesty Blase - agora estava no centro do palco com um longo vestido negro cuja cauda ocupava o grande círculo que fora giratório no ato anterior, chorando a miséria em que caiu Abelardo um arrivista com quem ela, "aristocrata" do café, se casara por conveniência econômica , vitima da sagacidade de seu assistente homônimo - e do imperialista americano.

E se referia a Chacrinha como teatralmente criativo e inspirador. Comentei a concordância no interesse por Terra em transe e Chacrinha. E nossa conversa animou- se com facilidade.

Carlos Nelson é um pensador marxista respeitado e, a despeito de nos vermos com grande raridade e sempre com brevidade, meu amigo. Ou, de qualquer modo, alguém de quem gosto. Seu livro me interessou primeiro porque eu queria ver como funcionava a cabeça de um intelectual conhecido se posta a trabalhar profissionalmente. Boal queria dizer com isso que aquelas figuras caricatas - o "burguês decadente", o "agente do imperialismo" etc.

Em breve eu descobriria que o teatro de Oswald de Andrade era a parte mais fraca de sua obra - e O rei da vela, talvez a parte mais fraca do seu teatro. Tudo o que eu vira ali, estava melhor posto em sua poesia, seus romances e seus manifestos. Antes de Zé Celso, os poetas concretos vinham se encarregando de ressuscitar Oswald.

Através de Augusto e seus companheiros tomei conhecimento da poesia a um tempo solta e densa, extraordinariamente concentrada de Oswald. Sobretudo recebi o tratamento de choque dos "manifestos" oswaldianos: Manifesto da poesia pau- brasil, de 24, e, principalmente, Manifesto antropófago, de Mais violentamente ainda do que Antonio Candido décadas depois, Oswald se referia à literatura brasileira como "a literatura mais atrasada do mundo".

De mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Pero Fernandes Sardinha pelos índios passa a ser a cena inaugural da cultura brasileira, o próprio fundamento da nacionalidade.

A idéia do canibalismo cultural servia-nos. Procurei também - e procuro agora - relê-la nos textos originais, tendo em mente as obras que ela foi concebida para defender, no contexto em que tal poesia e tal poética surgiram.

A poesia límpida e cortante de Oswald é, ela mesma, o oposto de um complacente "escolher o próprio coquetel de referências". E queríamos agir à altura. E, psicanalista, observa que a melhor maneira de ajudar esse país amado a superar sua falência como projeto é jogar-lhe na cara sua desesperança fatal. E é por ele criticado duramente por substituir pelo tubo digestivo que todos sabem onde vai dar Ora, tudo isso tem a ver com o tropicalismo.

E, acima de tudo, revela uma vontade corajosa de conhecer o corpo e a alma desse país encontrado no caminho. Mas eu também sei ser realista - Oswald também sabia — e considero bem-vindo o refluxo conservador. Quando Orfeu do Carnaval estreou eu tinha dezoito anos.

Assisti a ele no Cine Tupi! Só Jean-Luc Godard escreveu, à época mesma do lançamento do filme, um artigo critico em tudo justo com o cinema, a poesia, o mito de Orfeu e a cidade do Rio de janeiro.

Um artigo que os tropicalistas gostariam de assinar. Isso foi o que me fez lembrar do livro do psicanalista italiano. Quase todo o mundo era visivelmente mestiço. O tropicalismo começou em mim dolorosamente. Tudo o que veio a se chamar de tropicalismo se nutriu de violentações de um gosto amadurecido com firmeza e defendido com lucidez.

Chico Buarque conta que, em sua adolescência de menino paulista de alta classe média, ele se sentiu atraído por Elvis e pelo folclore urbano da "juventude transviada". A bossa nova trouxe-o para uma maturidade que fez dessa fase uma sua pré-história artística e pessoal. Quando a bossa nova chegou, senti minhas exigências satisfeitas — e intensificadas. A ausência de solos de sax também contribuiu muito. Zé Celso gostava de dizer que havia um forte componente masoquista no tropicalismo.

As aventuras da sensibilidade se deram num grande vazio. Seus poemas curtos e espantosamente abrangentes, a começar pelos ready-mades extraídos da carta de Caminha e de Outros pioneiros portugueses na América, convidavam a repensar tudo o que eu sabia sobre literatura brasileira, sobre poesia brasileira, sobre arte brasileira, sobre o Brasil em geral, sobre arte, poesia e literatura em geral.

O que só aumenta nossa honra em vê-lo cantando, no filme de Godard Vento leste, em resposta à pergunta "Para onde vai o cinema do terceiro mundo? Passei a fazê-lo com alguma regularidade.

Muitos dos que eram íntimos tinham se afastado por causa da revolta que lhes inspirava o tropicalismo. Tínhamos certeza de que ninguém sairia diminuído desse episódio. E que, com o tempo, todos perceberiam vantagens gerais advindas do nosso gesto. O que fazia dele um personagem irresistível era o seu canto. De origem muito humilde carioca da Zona Norte, tinha sido até trocador de bonde , fora descoberto para o sucesso casualmente por causa do seu talento evidentíssimo. E Orlando, homem de pouquíssimas letras, tendo pegado a possibilidade no ar, desenvolveu uma técnica que nada devia à do cantor americano.

Roberto da Jovem Guarda. Quem mais competia em constância com Orlando Silva no prato dessa vitrolinha era Carmen Miranda. De todo modo, Aracy tinha sido o veículo para o renascimento de seu prestigio nos anos 50, quando Noel passou a ser considerado o maior compositor popular brasileiro de todos os tempos.

Gil sobretudo estava apaixonado por Hendrix. Na verdade, ele só tinha se mostrado apaixonado assim, antes, por Jorge Ben e pelos Beatles e depois por mais ninguém.

Jimi Hendrix, comparado com ele, parecia algo importante e sério, embora ingênuo. Até hoje, esse é o disco de Dylan que mais me emociona. Eu sabia de sua respeitabilidade e seu som sugeria uma mente mais culta do que a dos melhores roqueiros ingleses, mas, comparados à verbosidade de suas canções caudalosas e à retórica que se adivinhava do que era inteligível nas letras meu inglês era meramente ginasial , os Beatles pareciam muito mais construtivos e enxutos.

Além disso, nunca me senti atraído pelo ambiente country americano, do qual ele tanto se aproximou. Até hoje, no entanto, a densidade de Dylan me interessa e sua personalidade artística me apaixona. Observo que o ouço hoje mais do que ouço os Beatles — e para maior proveito. Ele é uma figura a um tempo central e à parte no panorama dos anos 60 - e um traço forte do século. Um dos mais impressionantes exemplos da pujança criativa da cultura popular americana, da cultura americana tout court.

De todo modo, uma vez lançada a idéia, assumi logo a liderança. Gil vinha de sua experiência com Duprat e os Mutantes na feitura de seu primeiro LP tropicalista. Era um disco com muito mais unidade do que o meu e como era de se esperar com maior domínio musical por parte do intérprete e autor das canções. Mas o meu tinha sido mais marcante "conceitualmente".

Talvez apenas porque tivesse saído antes. Talvez porque, para compensar minhas carências propriamente musicais, eu tenha mesmo tido sempre que ser mais "conceitual".

Sobretudo eu esperava poder assim fazer da perícia musical de Gil, de Duprat e dos Mutantes um veículo para minhas idéias. Era um modo de comentar, com amor e humor, a presença de expressões inglesas nas canções ouvidas - e nas roupas usadas - pelas pessoas comuns. Tom Zé tinha sido nosso companheiro dos shows do Teatro Vila Velha.

Essas indicações de excepcionalidade eram em parte confirmadas por suas canções satíricas feitas em tom deliberadamente folclórico. Inicialmente, no entanto, ele resistiu muito ao convite. Lembro de uma conversa nossa perto do Cine Guarany atual Glauber Rocha , na praça Castro Alves, em que ele me dizia que a idéia era uma loucura. E isso chegou a exteriorizar-se até o conhecimento da aeromoça e quem sabe de outros passageiros. Quando a aeromoça se aproximou para perguntar o que queríamos beber, ele respondeu cortantemente: "Cachaça".

Mande parar essa caravela". Tudo isso sem que se perdesse o humor distanciado de quem diz ao mesmo tempo que tudo é uma brincadeira - e de quem sabe que tem charme. Eu tinha feito e dado para Gil musicar uma letra a que pus o nome de "Panis et circensis". Havia, no entanto, orgulho nesse desleixo. Lembro de Duda, em 65 em Salvador, me contando uma entrevista de Godard em que este dizia que, ao terminar de ler um livro, jogava-o pela janela.

Quando menino ouvi louvarem muito os maus alunos inteligentes e ridicularizarem os cus-de-ferro. Quando tinha ouvido o suficiente para ter uma idéia do que era, ele a interrompeu bruscamente, batendo na mesa e dizendo: "Isso é uma merda!

Gal calou-se assustada e eu, indignado, disse a ele que saísse dali. Vandré estava apenas externando francamente o que muitos sentiam a nosso respeito. Um aspecto tristemente mesquinho de sua personalidade contribuía igualmente para tais explosões. Eu, principalmente, apesar de ver Chico Buarque muitíssimo acima de Vandré - musical, poética e eticamente — tinha preferido de longe e o manifestava "Disparada" a "A banda".

É preciso, para entender essas minhas suposições, que se saiba melhor quem é, para mim, Gilberto Gil. Lembro com muito gosto o modo como ela se referia a ele pelo menos ela o fez uma vez e isso ficou marcado muito fundo dizendo: "Caetano, venha ver o preto que você gosta". Isso de dizer "o preto", sorrindo ternamente como ela o fazia ou fez , tinha - teve, tem - um sabor esquisito que intensificava o encanto da arte e da personalidade do moço no vídeo.

Falei sobre ele com todas as pessoas com quem eu encontrava na noite. Roberto Santana é que com certeza o conhecia pessoalmente. Fiquei intimidado com a possibilidade real do encontro: que graça poderia ter eu para "Beto"? E, dadas minhas limitações musicais e meu desinteresse por futebol ou outros temas masculinos, que assuntos em comum eu poderia ter com ele para sustentar uma conversa?

Temi um encontro combinado resultando em minutos de silêncio constrangedor. Roberto Santana me apresentou a Gil num encontro casual na rua Chile eu ia sozinho no sentido praça Castro Alves - praça da Sé e eles dois vinham ao meu encontro e nós todos nos sentimos inteiramente à vontade, cada um querendo falar mais do que o outro.

Dir-se-ia que ele também vinha me vendo em algum vídeo transcendental e esperava por esse encontro tanto quanto eu. Este é um ponto central de meus cuidados, foi do tropicalismo e permanece, para mim, irresolvido.

E recuei. Gil é um mulato escuro o suficiente para, mesmo na Bahia, ser chamado de preto. Seu pai tinha carro e ele estudara em escola privada. Mas Gil era muito mais parecido com um militante do que eu que estudava na Faculdade de Filosofia, com seus departamentos de Sociologia, Letras e História, onde a esquerda imperava.

Gil nunca parecia consciente do fato de que era preto. Agora, com o aspecto black is beautiful" da cultura pop que ele abraçava como conseqüência de seu refinamento pessoal, ele encontrava africanidades em suas reminiscências domésticas e revolta contra os aspectos raciais da injustiça da sociedade brasileira.

Assim, o pequeno burguês bossa-nova de 63 é cantado pelos blocos afro dos anos 80 e 90 como aquele que ficou no lugar de Bob Marley na defesa de seu povo. Nascemos os dois no mesmo ano de 42, com diferença menor do que um mês.

Meu pai se chamava José e o pai dele se chamava José. E ele também deve se cansar de me idealizar. Seja como for, nenhum de nós dois é egomaníaco o suficiente para deixar que problemas desse tipo se tornem maiores que a amizade ou a parceria. De todo modo, para Zé Agrippino, apenas a faixa dos Mutantes o tratamento que eles deram à minha parceria com Gil "Panis et circensis" saia do limbo do subdesenvolvimento.

Depois que voltei de Londres, nos anos 70, Rita Lee se tornou, com um trabalho de excelente qualidade e grande sucesso, a roqueira-mor do Brasil.

E os Mutantes, sem ela, se inclinaram para o progressive rock, com competência para soar como o Yes ou o Emerson, Lake and Palmer. A palavra-chave para se entender o tropicalismo é sincretismo.

Somos baianos. Tampouco queríamos encarar com rancor ou melancolia. Os pruridos nacionalistas nos pareciam tristes anacronismos. Ao mesmo tempo, sabíamos que queríamos participar da linguagem mundial para nos fortalecermos como povo e afirmarmos nossa originalidade. O mero aggiornamento era pouco para nós. Na estrada, tropeça e cai, quebrando uma perna. Cresci para desgostar de ópera italiana e suas imitações, e ainda hoje, quando se trata de canto lírico, tenho prazer total com sopranos e contraltos e quase nenhum com tenores e barítonos.

Curiosamente, tanto Gil quanto Milton Nascimento têm, nesse particular, gosto igual ao meu. E lembrava melhor dela que era indiscutivelmente a que melhor servia aos propósitos tropicalistas do que de qualquer outra de Celestino.

Impressionou-me, à época, que esse conto popular pudesse ter se mantido igual em todos os detalhes por tantos séculos. Num nível sempre extraordinariamente mais alto do que seus seguidores, Capinan prefigurou toda a lírica "participante" pós-tropicalista. Primeiro porque reconhecia ali a natureza de choque efêmero desses ditos: se repisados, eles revelam uma ingenuidade que trabalha contra os próprios impulsos que os inspiraram.

Finalmente me convenceu a fazê-la "só para ele". Minha recusa foi resistente. E trocamos de bandas: eu iria com os Mutantes um sonho meu e ele com os Beat Boys, agora rebatizados de Os Bichos.

E Gil foi desclassificado. A medida que os rostos curiosos - mas nem por isso livres do ódio que os fizera desaparecer - ressurgiam, minha ira e meu confuso entusiasmo cresciam e, numa voz a um tempo descontroladamente insegura e confiantemente profética, eu disse: "Essa é a juventude que diz que quer tomar o poder? Saímos do TOCA amedrontados.

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Na calçada em frente ainda havia pessoas gritando coisas. Fiquei angustiado. Eu me sentia orgulhoso, sem embargo. Era com muito orgulho que eu nos via num sofisticado show à margem da chatice do FIC. O show foi possivelmente a mais bem-sucedida peça do tropicalismo. O que ele e os Mutantes apresentavam nesse show tinha a soltura e a independência daquilo que se impõe como fato novo valendo por si, sem a ansiedade nem a letargia provincianas.

Por isso também o show representou uma nossa entrada violenta no Rio. Lembro de Antoine, o cantor francês, mostrando-se impressionadíssimo com o que vira e me dizendo que aquilo era "mais importante do que Hair", e assustando-se diante de minha total ignorância do que se tratava, rindo por ter de explicar-me o musical que estourara na Broadway.

O episódio foi muito falado e teve, a médio prazo, terríveis conseqüências. Um jovem jornalista carioca chamado Carlos Marques nome que soa exatamente como o de Marx quando pronunciado por um lusófono, de modo que, como era comum aportuguesar-se o prenome do filósofo, nós fazíamos toda sorte de brincadeiras com essa coincidência trouxe para Gil, de volta de uma viagem ao Amazonas aonde ele tinha ido fazer uma reportagem, uma garrafa do que ele dizia ser uma beberagem indígena sagrada que produzia visões deslumbrantes e estados de alma elevadíssimos.

Eles riam muito e eu sentia medo. Circulavam notícias de professores presos ou chamados para prestar depoimento e boatos sobre o paradeiro de colegas desaparecidos.

E - o que era mais assustador - tanques nas ruas. Eu sentia medo e ódio daquela presença do exército nas ruas, com suas cores encardidas e seu ar anônimo.

Infantilmente, apenas desejei que aquilo passasse depressa. Quando na faculdade me disseram que alguns pensadores prognosticavam pelo menos dez anos de governo militar, eu me senti gelado por dentro.

Eu estava indo freqüentemente ali para ouvir Gal cantar e para aproximar-me de Dedé, com quem eu queria namorar mas que tinha um namorado carioca.

Quando todo o mundo disse que ia dormir, eu e Dedé, sem precisar combinar, ficamos sós por mais algum tempo e nos beijamos. Cheguei ao Biklour esfuziante de alegria, sobretudo porque, no caminho, vim pensando nas delícias de poder contar com uma menina bonita que aceitaria minhas carícias, as quais poderiam ser cada vez mais íntimas e ousadas.

Gil, ao me ver, disse imediatamente: "Você começou a namorar com aquela menina da Graça! Mas depois do primeiro encontro, ficamos algum tempo sem nos ver. Poucas semanas depois viria o golpe que Lacerda encomendava, sugeria e afinal colaborou para arquitetar.

O ministro da Fazenda era Gouveia de Bulhões, mas o nome de Roberto Campos passou a ser sempre mais repetido.

Ele apenas retirou-se para sua fazenda na fronteira com o Uruguai. Na verdade, a grande imprensa toda saudara a derrubada de Goulart. As passeatas das senhoras católicas marchas da Família com Deus pela Liberdade se sucediam em todas as grandes cidades brasileiras. E piadas antimilitares muito cedo circulavam em todos os ambientes.

Política nunca foi o meu forte. Quando eu tinha uns sete anos de idade, comentei à mesa que a professora tinha ensinado que os comunistas eram maus. Aprendi para sempre, com esse episódio, a desconfiar dos anticomunistas. Por outro lado, na parede da sala de jantar de nossa casa, via-se uma fotografia de Franklin Delano Roosevelt.

Meu pai dizia que essa homenagem - que durou talvez uns poucos anos - se devia ao fato de esse presidente dos Estados Unidos ter sido um grande defensor da democracia. Assim, o antiamericanismo encontradiço entre os simpatizantes comunistas tampouco era alimentado por meu pai.

No final dos anos 60, período do tropicalismo, as idéias da nova esquerda referentes a liberdade sexual, mudanças comportamentais etc. As demonstrações cresciam e as lideranças estudantis surgiam nas reportagens da grande imprensa. Claro que o maio de 68 na França tinha sido um show jornalístico e o movimento brasileiro se beneficiou disso.

Na verdade, ele ganhou rapidamente uma fama de pouco inteligente, algo desleixado e amante do jogo. Sua mulher, d. Nós, os tropicalistas, dizíamos às vezes, entre nós, que ela era a musa do movimento. Ela era camp. Ou achar graça nela o era. Depois dessa passeata, muitas outras menores se seguiram. Papel picado caia dos prédios do centro da cidade e o clima era de total simpatia. Mas a Policia Militar crescentemente reagia a essas manifestações. Um episódio me parece muito significativo.

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De repente, percebemos um alarido vindo da rua. Olhando do nosso vigésimo andar, vimos tratar-se de uma passeata de protesto estudantil contra a ditadura. Decidi descer para ver de perto. Waly e Tenório me acompanharam.

Muitos estudantes eram alcançados por policiais, que os espancavam. Meus dois amigos seguiam a meu lado calados e tensos. Meu cabelo estava enorme e emaranhado, indo alto acima da cabeça e quase chegando aos ombros. Minha figura era surpreendente para a hora e o local os homens de cabelos muito longos ainda eram raros e se mostrava mesmo assustadora para a maioria das pessoas de quem me aproximava. Eu interpelava os passantes, protestando contra sua indiferença medrosa e, quem sabe?

Homens e mulheres apressados tinham medo dos manifestantes, dos soldados e de mim. Sentia-me possuído por uma ira santa. E desaforos era o que ouviam. Eu falava alto e exaltadamente, mas nenhum soldado se aproximaria de mim o suficiente para me ouvir.

Eu estava consciente de estar encenando um happening. Era uma performance extravagante e séria que se dava à luz do sol. Mas nessa estranha descida à rua, eu me sabia um artista realizando uma peça improvisada de teatro político. De, com licença da palavra, poesia. Eu me achava nesse momento necessariamente acima de Chico Buarque ou Edu Lobo, de qualquer um dos meus colegas tidos como grandes e profundos. Ele veio para o meu apartamento com a garrafa e serviu a cada um a quantidade que Marques "Marx" tinha recomendado: pouco mais de meio copo.

O lança-perfume era um sinônimo de felicidade para mim. Meu pai comprava uma garrafinha para cada um de nós que respeito ele tinha pelo Carnaval! Assim, quando Luis César me propôs a experiência, embora eu resistisse por muito tempo, chegou um ponto em que a curiosidade foi maior que o medo. Aspirei o lenço embebido no líquido e, em um segundo, era a pessoa mais infeliz sobre a face da terra.

Luís César foi e voltou de seu mergulho sem demonstrar grande gozo ou grande sofrimento. Todos tomaram. Menos eu, que, anos depois dessa experiência com o lança-perfume - e pouco mais de um ano antes dessa noite -, tivera um sofrimento igualmente infernal por causa de maconha. Tinha sido uma negra americana que vivia em Salvador - ou ali tinha um apartamento alugado aonde vinha de Nova York para passar semanas -, uma mulher muito interessante cujas atividades na cidade nunca conseguimos precisar, quem nos iniciara, a mim e a um grupo de amigos baianos, na marijuana.

Ela tinha grandes quantidades de erva de primeiríssima qualidade - "cabeça de negro" — e deu um cigarro a cada um. Como eu nada sentisse, procurei seguir suas instruções à risca. O susto foi muito grande e cheguei à janela esperando que aquilo passasse logo. Percebi que aquilo estava apenas começando.

Imediatamente demonstrei meu desespero e eles, a partir daí, passaram a se concentrar em cuidar de mim. Eu me sentia longe e tinha uma saudade enorme das mesmíssimas pessoas que estavam ali comigo.

Sentia uma saudade desesperada, da Bahia, de mim mesmo, de Dedé, da vida. Me deram doce, leite, laranjada. Nada me fazia melhorar. Por umas cinco horas sofri como louco.

Fiquei tranqüilo esperando. Ela me soava superficial e gaiata e eu ria entendendo muito bem por que ela me soava assim. Sabia tudo sobre aquele pedaço de madeira que aparecia sob o tapete. Captava o sentido das variações de densidade, entendia a história de cada pedaço de matéria.

Sandra entrava e saia do quarto do som com os olhos duros e o rosto sério. Ela estava assustada. Eu a achava parecida com um índio. Dedé circulava pela sala dizendo que se via a si mesma em outro lugar. Fechei os olhos. É tudo simétrico! E eu mesmo achava graça nas palavras escolhidas. E mais ainda: entendia que esse "é tudo" se referia àquilo que de fato é.

Eu tinha toda a calma do mundo para interpretar nesses termos o que eu mesmo dizia. Os pontos estavam mais e mais ricamente organizados. Eram luzes concentradas de cores gostosamente definidas.

Eu queria o que acontecia: eu desejava tal ou qual movimento e isso era imediatamente fatal. Formas circulares eram compostas por lindos pontos luminosos dançantes. Aos poucos eu sabia quem era cada um desses pontos.

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E em breve eles de fato se mostravam como seres humanos. Eram muitos, de ambos os sexos, todos estavam nus e tinham aspecto de indianos. De fato, aos poucos eu reconhecia que os seres vistos com os olhos fechados eram indubitavelmente mais reais do que meus amigos presentes no quarto do som ou as paredes desse quarto e os tapetes. Dedé me chamou para ir até a varandinha atapetada e envidraçada que ficava junto à sala de visitas.

Voltei ao quarto do som e retomei a experiência celestial dos olhos fechados. Mas o que quer dizer mais real? Eu podia me ver vendo o que via e, embora sabendo que tudo eram instâncias ilusórias, era capaz de julgar o que se aproximava mais do real absoluto. Apenas eu entrara em contato com um nível de realidade mais funda e mais intensa.

Eu me sentia feliz. Mas essa felicidade, embora sentida com arrebatamento, também era vista de longe, como um mero aspecto desse mundo menos real do que aquele dos anjos hindus. Estes eram também reconhecidos como meus ancestrais: eram todas as pessoas que existiram para que eu chegasse a ser. Eram também todas as pessoas que realmente existiam. Daquele rosto emanava perenemente tudo. Aquela fonte olhava e sabia. Eles traziam em seus olhares e seus gestos é preciso relembrar que eu sentia conhecê-los cada um individualmente a mensagem de poder, sabedoria, inevitabilidade e grandeza da cara da pessoa-fonte.

O fato é que, num dado momento, considerei que talvez me tivesse deixado ir longe demais. Decidi abrir os olhos e sair do quarto do som, onde estivera quase todo o tempo, e ir para a sala de jantar.

Mas a idéia da infinidade de processos mentais complexos que isso implicava me paralisou. Compreendi, com a mesma lucidez com que pude compreender tudo o que vira sob o efeito do alucinógeno, que estava louco. De todo modo, minha mente estava exausta das operações estéticas, lógicas e afetivas a que se dedicara com tanta espontaneidade. Lembro de Duda falando muito sério, como a dar à minha possível capacidade de autocontrole uma característica de responsabilidade moral.

Vendo-me, pensei, reconquisto-me.

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Por algumas horas andei de um lado para outro do apartamento, vivendo no inferno. O mal, com efeito, era vivido como eterno. Curiosamente, de todos os amigos presentes, apenas um me volta sempre à memória como estando, de algum modo, ligado - seja como indutor ou mero espectador - aos primeiros momentos de esperança de melhora.

Ficou de trazê-lo até o Severino Vieira Waly estudava no Central para fazer as apresentações. Depois de uns dois alarmes falsos, finalmente nos encontramos. Wanderlino falara-lhe também de mim. Wanderlino sabia mais do que nós: em pouco tempo, Waly e eu tínhamos nos tornado amigos e o somos até hoje.

Acho que todos os outros, inclusive Dedé, tinham ido dormir, tranqüilizados com minhas mostras de retorno à normalidade. Como no caso do lança- perfume - mas de modo muito mais complexo - a suave alegria de voltar à vida era estragada pela certeza de que a experiência recém- finda representaria uma ameaça para sempre.

De fato, por mais de um mês eu me senti vivendo como que um palmo acima de tudo o que existe. E por mais de um ano certos resquícios específicos se mantiveram. Na verdade, algo de essencial mudou em mim a partir daquela noite. Eu realmente odiei o cinismo do star system exibido no episódio e apostei tudo na qualidade do canto de Gal, que tal cinismo ameaçava. Os tropicalistas, no entanto, pareciam deixar os chefes sem saber o que fazer, embora todos nos corredores da Record falassem num programa a ser liderado por mim.

Em algumas conversas com o próprio Paulinho Machado de Carvalho, eu notara a insegurança diante das idéias esboçadas. Tanto Paulinho quanto os principais produtores da emissora nos tratavam com carinho e pareciam sinceramente nos querer bem.

Essa marca de frivolidade era tomada meramente como tal por todos no nosso meio. A melodia era, deliberadamente, o pop mais doce e pegadiço. Mas as palavras chamavam uma "menina" "quantos anos você tem? Divino, maravilhoso também foi o nome que escolhemos para o programa que estrearíamos na TV Tupi. Tivemos como convidados Jorge Bem, Juca Chaves um cançonetista satírico que surgiu durante a bossa nova e, embora inicialmente confundido com ela, era o antibossanovista por excelência e Paulinho da Viola que tampouco se identificava com a bossa nova.

Paradoxalmente, sentia-me bastante triste com isso. Arrependia-me de ter bebido a droga. Às vezes meditava — sem entusiasmo - sobre o sentido religioso da experiência. Todas essas observações surgiam indiferentemente em minha cabeça. Mas, com o passar do tempo, comecei a indagar com mais empenho sobre o que se passara.

A medida que eu me tornava de novo capaz de integrar-me mais verdadeiramente à vida, opunha o valor místico do que experimentara - e o valor do misticismo em geral - ao apego genuíno à realidade, tal como se apresenta sob a forma de fé na constância das leis da matéria. Assim, enquanto as "mirações" eram vividas como deslumbrantes e benfazejas, o mundo cotidiano, embora relegado a um plano inferior de realidade, era amado e protegido com naturalidade.

Ao passo que, ao desfazer- se a capacidade de querer e de entender, perdiam-se os dois mundos. Isso só confirma meu apego à realidade material.

Eu tinha tomado um alucinógeno que me dera visões tramadas pelo meu próprio cérebro de modo a se imporem como mais reais do que o mundo. Um acidente que me tivesse lesado o sistema nervoso central poderia ter produzido ambas as coisas. Só à medida que fui me readaptando ao senso comum é que pude readquirir algum interesse e carinho pelo mundo maravilhoso que se engendrara em mim.

Na verdade, verifiquei em Londres que muitos homens indianos mais velhos se pareciam com meu pai que era obviamente um mulato. Eu próprio fui muitas vezes confundido com um paquistanês o que me fazia temer os skinheads. Mas ouvi pelo menos um relato de experiência com auasca em que o sujeito, um brasileiro branco ou pelo menos muito mais passível de ser qualificado como tal do que eu , viu multiplicarem-se durante horas diante de si chineses, homens e mulheres chineses que formavam, com seus chapéus tipicamente chineses, as mais variadas composições decorativas.

Além disso, ninguém sabe o repertório de formas, estruturas, temas e operações que portamos no cérebro. Eu tinha lido nas memórias de Simone de Beauvoir que Sartre passara um ano assombrado por lagostas e caranguejos gigantes que lhe tinham ficado como resíduo de sua viagem com mescalina. O fiscal do mesmo estabelecimento era o padre Fenelon.

Eu me perguntava como seriam essas sensações. Tremi antes de comungar e senti-me decepcionado e aliviado ao perceber que nada me acontecera. Por que eu tinha tanto medo de Deus? Por outro lado, o candomblé estava sempre presente. Lembro a primeira vez que vi Edite possuída. Parecia um homem zangado. Tive medo.

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Esse medo nunca me deixou de todo. E durante o porre de lança- perfume, o barato da maconha e a viagem de auasca. Esse é o tipo de candomblé que predomina nas cidades menores do recôncavo baiano, enquanto em Salvador a liturgia africana, conservada praticamente intacta, marca os grandes terreiros.

Eu tinha medo do transe e amor pelo ritual. Suponho que foi antes. Como quer que tenha sido, considero pelo menos igualmente significativo.

Quando, cerca de um ano mais tarde, saímos do Brasil rumo ao exílio londrino, passamos antes em Portugal. Meu amigo Roberto Pinho me pediu que o acompanhasse até Sesimbra, onde ele tinha um encontro com um senhor português que tomava conta do castelo medieval da colina e era tido como alquimista. E do mar muito azul rodeando de longe as muralhas de pedra. Mas estou seguro de que comuniquei a integra do texto ao português.