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Vai, e avisa-me da morte do homem sem esperar que esfrie o corpo. Marwood olhou para o céu como se rezasse e pedisse por essa paciência. Exatamente o oposto de tudo o que Blaire conhecia. Nesse dia convidou-o para jantar. Os outros ao menos têm a experiência da vida, ao passo que este Inicie em. Unknown 17 de setembro de O desejo sempre encorajou a generosidade. Bauman, TheAbsence ofSociety, p. Todos conheciam sua avó. Ela abriu mais a porta. Ela era bonita e talvez tivesse dezesseis anos de idade. Uma promessa provocante. Eu fui. Maria Rita era uma morena de truz, perigosa como o demo.

Aqui você pode baixar um livro PDF especial para o ePub Contemporary Tentada. Nesta página você encontrará livros em PDF, Kindle, Ebook. Tentada - P. C. Cast - documento [*.pdf] TENTADA House of Night 6 P.C. Cast e Kristin Cast Kristin e eu gostaríamos de dedicar esse livro a. Baixar Livro Destinada - House of Night Vol 9- P C Cast em Pdf, mobi e epub. Tentada - P. C. Cast e Kristin Cast Capas De Livros, Estante De Livros, Leitura. Baixar Livro Despertada - House of Night Vol 8- P C Cast em Pdf, mobi e epub. Tentada - P. C. Cast e Kristin Cast Capas De Livros, Estante De Livros, Leitura. Depois de tanta agitação, Zoey bem que merecia um descanso. Mas não há tréguas na Morada da Noite. Lidar com três caras ao mesmo tempo, novamente, .

Cavalgo e parto. Por estes dias de março a natureza acorda tarde. Agora, uma porteira. Ali, a encruzilhada do Labrego. Tomo à destra, em direitura ao sítio de José Alvorada. Três alqueires, só no bom. Talvez quatro. Descontadas as bandeiras[15] que o porco estraga e o que comem a paca e o rato Que frescura! Lembra os pés de avenca viçados nas grotas noruegas. Olhem como se acanhou! De olhos baixos, finge arrumar a rodilha.

Como a vida no mato asselvaja estas veadinhas! Foram rareando as idas à cidade e ao cabo de todo se suprimiram. Depois que lhes nasceu a menina, rebento floral em anos outoniços, e que a geada queimou o café novo — uma tamina, três mil pés —, o velho, amuado, nunca mais espichou o nariz fora do sítio. Costumava dizer: mulher na roça vai à vila três vezes — uma a batizar, outra a casar, terceira a enterrar. Fora uma vez à vila com vinte dias, a batizar. Que lhe valeu a ela ler e escrever que nem uma professora, se desde que casou nunca mais teve jeito de abrir um livro?

Na roça, como na roça. Deixei a menina às voltas com a rodilha e embrenhei-me por um atalho conducente à morada. Que descalabro! Tapera quase e, enluradas nela, o que é mais triste, almas humanas em tapera.

Bati palmas. Apareceu a mulher. Foi queimar um mel na maçaranduva do pasto. Apeie e entre. Toda rugas na cara — e uma cor Estranhei-lhe aquilo. Estômago, fígado, uma dor aqui no peito que responde na cacunda. Casa velha, é o que é. Criei minha neta e inda lavo, cozinho e coso.

Coso, sim! Mas eu? Pobre de mim! Só admiro ainda estar fora da cova Aí vem Zé. Chegava Alvorada. Ao ver-me abriu a cara. É só melado. Bonito, hein? Estava difícil, num oco muito alto e sem jeito. Mas sempre tirei. É mel-de-pau. Pôs os olhos no meu cavalo. Bom bicho! Eu sempre digo: animais aqui no redor, só este picaço e a ruana do Izé de Lima. O mais é eguada de moenda. Neste momento entrou a menina de pote à cabeça. Ao vê-la o pai apontou para a cuia de mel. Perdi, paguei. Que aposta?

Vinha passando um bando de maritacas. Eram nove. Ela ganhou o doce. Doce da roça mel é. Em se lhe dando corda, ressurgia nele o tagarela da cidade. Expus-lhe o negócio. Alvorada enrugou a testa; refletiu um bocado, de queixo preso.

Desde que caí daquela amaldiçoada ponte do Labrego, fiquei assim como quebrado por dentro. Lembra-se da empreitada do ano retrasado? Pois saí perdendo. A velhinha sentara-se à luz da janela e, abrindo uma caixeta, pusera-se a coser, de óculos na ponta do nariz. Aproximei-me, admirativo. Com setenta anos! Sorriu, lisonjeada.

E isto aqui tem coisa. Dos vestidinhos dela vou guardando cada retalho que sobeja e um dia os coso. Veja que galantaria de serviço Metida na cozinha, percebi que nos espiava por uma fresta. Apesar disso acho que deve pensar um bocado.

Mas hoje Transcorreram dois anos sem que eu tornasse aos Periquitos. Era fatal a dor que respondia na cacunda. Desconfiem das sonsas O incidente ficou a azoinar-me o bestunto.

Que golpe! Desta feita ia-se-lhe a rijeza de cerne. Setembro entumecia gomos em cada arbusto. Nenhuma neblina. A paisagem desenhava-se nítida até aos cabeços dos morros distantes. Por amor à simetria, montava eu o mesmo picaço.

Transpus a mesma porteira. Atalhei pelo mesmo trilho. Mais uns passos e a tapera antolhou-se-me, deserta. Só os mamoeiros subsistiam, mais crescidos, sempre apinhados de frutos. Três vezes repeti o apelo. Por fim surgiu dos fundos uma sombra acurvada e trêmula. Zé fora à vila, vender a sitioca para mudar de terra.

Sozinha estou em toda parte. Morreu-me tudo, a filha, a neta Sentei-me, com um nó na garganta. Parece que foi ontem que estive aqui. Apesar das doenças, iam vivendo felizes. Morreu-me a filha, mas restava a neta — que era duas vezes filha e o meu consolo.

Desencaminharam a pobrezinha Agora, que mais? Só peço a Deus que me retire, logo e logo. Relanceei um olhar pela sala vazia. A caixeta de costura inda estava sobre a arca no lugar de sempre.

Meus olhos pousaram ali, marasmados. Tirou de dentro a colcha inacabada, contemplou-a longamente. Ninguém imagina o que é para mim esta prenda. Aqui leio a vidinha dela desde que nasceu. Os dias e as noites que passei ao pé dela, a contar histórias!

Como gostava da Gata Borralheira! Depois: — Este é novo. Ficou um vestido muito assentadinho no corpo, e galante, mas pelas minhas contas foi o culpado do Labreguinho engraçar-se da coitada. Hoje sei disso. Naquele tempo de nada suspeitava. Era, quer ver qual? Era este de pintas vermelhas, repare bem.

Foi o derradeiro que fiz. Com ele fugiu Calou-se, a lacrimejar, trêmula. Que quadro imensamente triste, aquele fim de vida machucado pela mocidade louca! E ficamos ambos assim, imóveis, de olhos presos à colcha.

Ela por fim quebrou o silêncio. Um mês depois morria.

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Sobretudo no bairro dos Porungas, onde assistia Pedro Porunga, mestre monjoleiro de larga fama, fungavam-se à conta do engenho risos sem fim. Levantara Nunes uma paca, certo domingo; mas ao dobrar o morro a bicha esbarrou de frente com um Porunguinha que casualmente lenhava por ali. Até aí nada. Mas comeram-na, sem ao menos mandarem um quarto de presente ao legítimo dono. Legítimo, sim, porque, afinal de contas, aquela paca era uma paca de nomeada.

Escapulia sempre. Paca velha e matreira tem sempre a biografia na boca dos caçadores. Paca muito conhecida, portanto; moradora em suas terras. Paca de Nunes, homessa. Ora, justamente no dia em que, numa batida feliz, ele a apanhara desprevenida, fazer aquilo o Porunguinha? Haviam de pagar!

Veio daí a malquerença. Pertencia Nunes à classe dos que decaem por força de muita cachaça na cabeça e muita saia em casa. Filho homem só tinha José Benedito, de apelido Pernambi, um passarico desta alturinha, apesar de bem entrado nos sete anos.

A princípio com caretas que muito divertiam o pai, o engrimanço pegou lesto no vício. Também usava faca de ponta à cinta. Do outro lado tudo corria pelo inverso. Era natural que prosperasse, com tanta gente no eito.

Plantava cada setembro três alqueires de milho; tinha dois monjolos, moenda, sua mandioquinha, sua cana, além duma égua e duas porcas de cria. Teve égua, mas barganhou-a por um capadete e uma espingarda velha. Comido o porquinho, sobrou do negócio o caco da pica-pau, dum cano só e manhosa de tardar fogo. Capado, nenhum. Galinhada escassa. Que preasse. Certa vez contaram ao Nunes que Pedro Porunga trazia negócio duma besta arreada.

Besta arreada, o Porunga! Doeu-lhe aquilo no fundo da alma.

Era atrepar demais. E entrou-se, desde aí, de grandes atarefamentos. Quem sabe?! Planeava Nunes grandes coisas, roça de três alqueires, conserto da casa, monjolo Ché, que esperança!

Nunes, metido em brios, roncou: — Boto, mulher, boto monjolo, boto moenda, boto até moinho! Hei de fazer a Porungada morder a munheca de inveja.

Vai ver! Pedro Porunga soube logo da bravata. Riu-se e profetizou: — Eh! O ano correu bem. Só havia prós. Carecia, pois, de armar monjolo. Desdobrado em farinha o milho, vinham dobrados os lucros. E Nunes maginava Empreito o serviço com o compadre Teixeirinha da Ponte Alta. É coisa de louco! Pois o compadre nem braço tem Esta troada era o argumento decisivo de Nunes nas relações familiares. Sabiam por dolorosa experiência pessoal que o ponto acima era o porretinho de sapuva.

Só a um bêbado como o Nunes bacorejaria a ideia de meter a monjoleiro um taramela daqueles, maneta e, inda por cima, cego duma vista. Mas era compadre e acabou-se. Coçava lentamente a cabeça, pitava enormes cigarrões, muito absorto, com os olhos no milharal e o sentido em coisas futuras.

Decidiu-se, por fim. Só restava resolver o problema da madeira. Boa peça! Dito e feito. Mal rompeu o dia, os Porungas, advertidos pela ronqueira, saíram a sondar o que fora. Deram logo com a marosca, e Pedro, à frente do bando, interpelou: — Com ordem de quem, seu Deixo a sua pra aí! Pedro continha-se a custo. Esquentou o bate-boca. Houve nome feio a valer. O mulherio interveio com grande descabelamento de palavrões.

O guampudo conheceu a arruda pelo cheiro! E assombrou o velho com muitos lances heroicos, quebramentos de cara, escoras de três e quatro, o diabo. A molhadela da garganta excedeu a quanta bebedeira tinham na memória. Com a derradeira Maria pendurada do seio magro, a mulher olhava para aquilo sacudindo a cabeça, a cismar Esvaídos os fumos da pinga, tornaram no dia seguinte à peroba, muito acamaradados.

A cachaça cimentara o compadresco antigo, e a feitura do monjolo teve início com grande quebradeira de corpo. Nunes passava os dias na obra, vendo o compadre desbastar a madeira com um braço só. Pasmava daquilo, e do ajutório que ao braço perfeito dava o toco aleijado. O velho Maneta sabia casos e casos, que Nunes respondia com outros, sempre tendentes a patentear a ruindade dos Porungas.

E tomando entre os dedos o meio do cordel — plaf —, chicoteava a madeira, riscando nela um traço negro. Greaves Quanto custou? Enquanto isso, muito desajeitadamente ia o Maneta escavando o cocho a machado e enxada.

Depois rasgou as furas da haste e afeiçoou a munheca. Escava que escava, em três dias pô-lo de banda, concluso. Dormi no estaleiro quantas noites!

Homem, fui um bicho do mato. E têm alma, dizia ele, porque sentem a dor e choram.

Ora pois têm alma, porque neste mundo tudo é criatura de Deus. É o pau de feitiço. Estava cortando um guamerim quando, de repente, soltou um grito. Acode que acode, o moço estava com o peito varado até as costas.

Como foi? Ninguém entendeu aquilo. Como este um, quantos casos? Era para ver se o feitiço estava solto ou preso, e precatar-se. Estava pronto o monjolo. Jubiloso, via Nunes quase realizado o primeiro sonho das futuras grandezas. Faltava apenas o assentamento, que é pouco — e ele batia tapas amigos na peroba-vermelha. Mansinha, hein? Recolheram cedo nesse dia para solenizar o feito à custa dum ancorote de cachaça, que esvaziaram a meio.

O cocho despejou a aguaceira — chóó! Nunes pulava de alegria. Queria mais. Nunes inda a manteve uns segundos alçada, esperando o tiro. Vamos ver se o ancorote nega também. Entrou o outono, refrescado, limpo. Amarelaram as folhas do milharal, as espigas penderam, maduras.

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Começou a quebra. O engenho provou mal. Fora escavado em madeira ventada. Consumiu dias em luta surda contra as manhas do mal engonçado. Mas a peste do mostrengo respondia a cada arranjo com uma reincidência de desalentar.

Que iria à Ponte Alta rachar o compadre a foice; que lhe vazava a outra vista; que Num desses desabafos a tola da mulher meteu a colher torta no meio. Toma, excomungado do inferno! Aprende a fazer monjolo, porco sujo! Nunes, porém, melhorou consideravelmente com o derivativo.

Mundificou-se da bílis. A nova de tais sucessos chegou à Porungada. Voltou uma hora depois espremendo risos fungados. Disse comigo: roncar, ele ronca, eh, eh! Fui chegando. Nunes, jururu, estava debulhando milho na porta. Quando me viu entreparou, amode que assombrado. O que foi, foi. Ele relanceou os olhos pro lado da ronqueira — eh, eh! Peguei de prosa.

Ele foi respondendo. Conversava sem graça, amarradinha. Por fim especulei: — E o monjolo, vizinho, ficou na ordem? Nunes amarelou que nem esta folha! Eu fui. Nossa Virgem! Aquilo nunca foi monjolo, nem aqui nem na casa do diabo! Só se vê amarrilhos de cipó e espeques e macacos.

A haste tem nove palmos e o cocho a mó que tem dez! Os Porunguinhas babavam. Ronca que nem uma trumenta. Mas, socar? O boi soca! Nem três litros rende por dia. Homem, gentes, aquilo é coisa que só vendo! Era um nunca se acabar de troças e pilhérias de toda ordem.

Inventavam traços cômicos, exageravam as trapalhices do mundéu. Sobre as linhas gerais debuxadas pelo velho, os Porunguinhas iam atando cada qual o seu buquê, de modo a tornar o pobre monjolo uma coisa prodigiosamente cômica. A palavra ronqueira entrou a girar nas vizinhanças como termo comparativo de tudo quanto é risível ou sem pé nem cabeça. Aos ouvidos de Nunes foram bater tais rumores. O orgulho, muito medrado no período dos sonhos de grandeza, murchara-lhe como fruta verde colhida antes do tempo.

Para acalmar a bílis Nunes dobrou as doses de cachaça. A mulher amanhava a casa num grande desconsolo da vida, esmolambada, sem mais esperanças de arranjo para aquele homem. Sempre rentando o pai, sorníssimo, Pernambi parecia um velhinho idiota. Brinquinho desnorteara.

Sentado nas patas traseiras olhava, inclinando a cabeça, ora para um, ora para outro, sem saber o que pensar da sua gente. E assim, meses. Afinal, veio a desgraça. Certo dia soube Nunes que o José Cuitelo da Pedra Branca, outro compadre, pusera nome a uma égua lazarenta de Ronqueira. Bebe com teu pai, meu filho. O resto da garrafa soverteu-se no bucho do caboclo. Nunes estirou-se ao sol para dormir. Era um dia feio de agosto. Céu turvo do fumo das queimadas.

Sol de cobre, sem brilho, a modorrar no ocaso. Folhinhas carbonizadas a descerem lentas do alto, regirantes. Transcorrida uma hora o bêbedo acordou, relanceou em torno os olhos mortiços. Uma das pequenas saiu no encalço do menino. Os olhos de Nunes a custo se abriam; sua cabeça oscilava, como se lhe houvessem desossado o pescoço. Da boca escorria-lhe baba, e molhadas nela as palavras vinham vagas, mal atadas.

Depois novos gritos — gritos em coro —, gritos de desespero. Nunes soergue-se, amparado ao portal. Ninguém lhe responde. Mas no monjolo recrudesce a grita. É tua obra, cachaceiro do inferno! É a tua pinga, homem à toa, esterco imundo! Nunes alcança o monjolo com dificuldade. E topa num quadro horrendo. Para fora, pendentes, duas pernas franzinas — e o monjolo impassível, a subir e a descer, chóó-pan, pilando uma pasta vermelha de farinha, miolos e pelanca Entre rugidos de cólera o louco arremessava golpes tremendos contra o engenho assassino.

Outra na haste — rebenta demônio! E pan, pan, pan — dez, vinte, cem machadadas como nunca as desferiu derrubador nenhum com tal rijeza de pulso.

Cavacos saltavam para longe, róseos cavacos da peroba assassina. E lascas. E achas A humanidade é sempre a mesma cruel chacinadora de si própria, numerem-se os séculos anterior ou posteriormente a Cristo.

Mudam de forma as coisas; a essência nunca muda. Como prova denuncia-se aqui um avatar moderno das antigas torturas: o estafetamento. A diferença é que estas engenharias matavam com certa rapidez, ao passo que o estafetamento prolonga por anos a agonia do paciente. O ingênuo vê no caso honraria e negócio. É honra penetrar na falange gorda dos carrapatos orçamentívoros que pacientemente devoram o país; é negócio lambiscar ao termo de cada mês um ordenado fixo, tendo arrumadinha, no futuro, a cama fofa da aposentadoria.

Note-se aqui a diferença entre os ominosos tempos medievos e os sobreexcelentes da democracia de hoje. O absolutismo agarrava às brutas a vítima e, sem tir-te nem habeas corpus, trucidava-a; a democracia opera com manhas de Tartufo, arma arapucas, mete dentro rodelas de laranja e espera aleivosamente que, sponte sua, caia no laço o passarinho. Chama-se a isto — arte pela arte Só ao cabo de um mês ou dois é que entra a desconfiar; desconfiança que por graus se vai fazendo certeza, certeza horrível de que o empalaram no lombilho duro do pior matungo das redondezas, com, pela frente, cinco, seis, sete léguas de tortura a engolir por dia, de mala postal à garupa.

Eis as puas do aparelho de tormento, as tais léguas! Quem viaja, feito o percurso, chega e é feliz. Vencidas as seis suponhamos um caso em que sejam só seis renascem na sua frente de volta. É fazê-las e desfazê-las. Com um vintém paga-lhe trezentos e trinta metros de suplício. Vem a sair a sessenta réis o quilômetro de martírio. Dor mais barata é impossível. O estafeta entra a definhar de canseira e fome.

Além das calamidades fisiológicas, econômicas e sociais, chovem-lhe em cima as meteorológicas. Se chove, de nenhuma gota se livra. O lombo delas é todo uma chaga viva; as costelas, um ripado. Caricaturas contristadoras do nobre Equus, um dia rebentam de fome, exaustas, a meio de viagem. O estafeta toma às costas os arreios, a mala, e conclui a caminheira a pé. Certa vez o agente do correio duma cidadezinha paulista oficiou ao centro queixando-se do estafeta.

Era este Biriba um caranguejo humano, lerdo de maneiras e atolambado de ideias, com dois percalços tremendos na vida — a política e o topete. A política escusa dizer o que é. Montou em seguida botequim mas faliu. No pleito trabalhara como nenhum. Oh, néctar! O nosso homem regalou as vísceras com o petisco dos deuses. Até que enfim os negrores da vida de misérias lhe alvorejavam em aurora. Comer à farta, serrar de cima Delícias do triunfo! Que lhe daria o chefe?

Vai Regino para agente e você para estafeta. Por ser para você, dou-a por metade. O dinheiro?

É o de menos. Você toma-o de empréstimo a Leandrinho. Arranja-se tudo, homem. Inda bem se fora devorar as léguas na só companhia da chupada mala postal.

À hora de partir surgiam aproveitadores com listinhas de miudezas, ou negras com recados. Além das pequenas encomendas, pouco trabalhosas, surgiam outras de vulto, como levar um cavalo arreado ao senhor Fulano que vinha em tal dia, acompanhar a mulher de Etcetrano, e que tais.

Foi como o conheci, guardando cesta às amazonas. De viagem para Itaoca, a meio caminho topo num homem encavalgado na mais avariada égua que jamais meus olhos viram. Abordei-o, pedindo fogo. Aceso o cigarro, indaguei de quem montava a cavalgadura vazia.

Ela apeou um bocadinho e E descomposturas O senhor parece bobo! Que moda! Toda gente gozou do caso, entre espirros de riso e galhofa. Estas e outras foram-lhe azedando os fígados e as vísceras circunvizinhas.

Biriba emagreceu. Biriba amarelou. Montado, Biriba afundava. Sua cabeça caía quase ao nível duma linha tirada da anca às orelhas da égua. E salvou-se, esta é que é! A roupa no fio. Biriba, perdida a paciência, murmurou.

Soube-o logo o chefe e fê-lo vir a contas. Queria, acaso, ser eleito senador ou vice-presidente? Queria mudar de vida. Quer abandonar os amigos? Quem mais serviçal?

Lembravam-se dos estafetas anteriores, malcriados, inimigos de trazer um papel de agulha fosse para quem fosse. Itaoca impunha-lhe o sacrifício de ficar. Este livre exame de consciência — crede-me — foi o início da queda do coronel Fidêncio em Itaoca. Biriba, o firme esteio, apodrecia pelo nabo; viria abaixo, e com ele a cumeeira do pardieiro político. Como o novo pleito se aproximasse, nova vitória lhe seria novo termo de martírio. Deliberou trair.

Fidêncio frisou a gravidade da incumbência — a maior prova de confiança jamais dada por ele a um cabo eleitoral. Isto é que é confiança, hein? Partiu Biriba. A meio caminho, porém, tomou por uma errada, foi ter à biboca dum negro velho, soltou a égua, pegou de prosa com o gorila. Caiu a noite: Biriba deixou-se ficar. Alvoreceu o dia seguinte: Biriba quieto. Dez dias se passaram assim. Ao cabo, arreou a égua, montou e botou-se para Itaoca como se nada houvera acontecido.

Que houve? Nada explicava. Sono cataléptico? Afigurava-se-lhe ter partido na véspera e estar de volta no dia certo. Ficaram todos maravilhados, com asníssimas caras. Fidêncio delirava na cama, com febre cerebral. Começou a derrubada. O olho da rua recebeu em seu seio tudo quanto cheirava a fidencismo. O novo cacique aproximou-se dele e disse: — Demiti toda a canalha, Biriba, menos a você. Fique sossegado, que do seu lugarzinho ninguém o arranca, nem que o céu chova torqueses.

À noite deu um beijo no focinho da égua e saiu de casa pé ante pé. Ganhou a estrada e sumiu. E nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima Os campos em sega tinham o aspecto de cabelos louros tosados à escovinha. Pura paisagem europeia de trigais. Vultos femininos de cesta à cabeça, que paravam a ver passar o trem. Carroções tirados a bois recolhendo o cereal ensacado.

E, enfiando os olhos pela janela, calou-se. Houve uma pausa de minutos. Tipo mal-encarado e ruim. Ainda tenho na pele o arrepio de horror que me correu pelo corpo ao dar uma topada balofa num corpo mole. Era a cabeça da velha, semioculta sob folhas secas. Porque o malvado a decepara do tronco, lançando-a a alguns metros de distância. Havia contra ele indícios fortes. Viram-no sair com a foice, a lenhar, na tarde do crime. Eu pressentia naquele sórdido tipo — e negue-se valor ao pressentimento!

Era o que alegava. Era como argumentava a logicazinha trivial de toda gente. O sujeito sorriu com malícia e continuou. Nesse ponto armou um pincho de gato e despejou-se pela janela fora. Pelo menos assim julgara o pai, como quer que o encontrasse na horta interessadíssimo em destripar um passarinho agonizante.

Pois disse. Vinha-lhe daí um certo apuro na linguagem, destoante do achavascado ambiente glóssico da fazenda, onde morava. Quem nada percebeu foi dona Joaquininha, a avaliar pelo ar emparvecido que deu à cara. Deixa-lo brincar, que é da idade, eu em pequeno fazia piores e nem por isso virei nenhum ogre. Outra vez! O homem nascera precioso.

Dona Joaquina fechou a cara, e quando o pequeno facínora entrou do quintal pediu-lhe contas da perversidade, asperamente. O menino raspou-se; o coronel retomou resignado o fio do discurso; e o caso do sanhaço ficou por ali. Acautelava-se agora. Aos grilos cortava as saltadeiras, e ria-se de ver os mutilados caminharem como qualquer bichinho de somenos. Fora ele quem cortara o rabo ao mísero Joli da agregada Emiliana, e era quem descadeirava todos os gatos da fazenda. Isso, longe.

Em casa, um anjinho. E assim, anjo internamente e demônio extramuros, cresceu até à mudança de voz. Entrou nesse período para um colégio, e deste pulou para o Rio, matriculado em medicina. Clínica escassa e mal pagante, sem margem para grandes lances, e inda assim repartida por quatro curandeiros que se dizem médicos, perfeitas vacas de Hipócrates, estragadores de pepineira com suas consultinhas de cinco mil-réis.

Queria pano verde para as boladas gordas. Uma pocilga! As boas pândegas do nosso tempo, hein? Antes de ir-se deu a cada parvo uma estrelinha do céu, para que, a tantas, se encontrassem nela os amorosos olhares. A garota morria de rir no colo dum apache montmartre, contando-lhe a história cômica dos seis parvos brasileiros e das seis constelações respectivas. Esta circular era o que havia de terno.

Jurara à amiga ir ter com ela logo que a prosperidade lhe abastasse meios. O tempo, entretanto, corria sem que nenhuma piabanha de vulto lhe caísse na rede.

Tardava a bolada Entre os médicos antigos de Itaoca o doutor Inacinho gozava péssimo renome — se renome péssimo pode ser coisa de gozo. É médico no diploma, na barbicha e no anel do dedo. Fora daí, que cavalo! Filho médico, e ainda por cima destabocado e bem falante como aquele Era de moer de inveja aos mais. Enlevava-o, sobretudo, aquele modo alcandorado de exprimir-se.

Revia-se no filho, o coronel Entrementes adoeceu o major Mendanha, capitalista aposentado com trezentas apólices federais, o Rockefeller de Itaoca. O melhor é chamar um médico. Isto é nada.

À noite agravou-se-lhe o malestar, e o velho, apreensivo, cedeu às instâncias da esposa. Chamar a qual deles, porém? Cobrar cinquenta mil-réis por um atestado falso? Aqui foi a mulher quem protestou. Os outros ao menos têm a experiência da vida, ao passo que este Mande chamar o menino.

Inacinho veio. Voltarei mais tarde. Este é consciencioso. Quer fazer a coisa pelo direito, é o que é. Voltou o moço logo depois e com grande cerimonial aplicou o instrumento no peito magro do doente. O doente arregalou o olho. Comigo é diferente. Tive no Rio, na clínica hospitalar, numerosos casos mais graves e a nenhum perdi. Deus queira tenhamos acertado, porque isto de médicos é sorte. Fosse Fortunato A doença do major Mendanha ninguém soube qual fosse. Prolongar a doença Engordar a maquia Queria dinheiro, porque o dinheiro lhe daria Paris, com Yvonne de lambuja.

Ora, o major tinha trezentas apólices Estou metido em uma empresa que se me afigura rendosa. Saindo tudo a contento, tenho esperanças de inda este ano beijar-te sob a luz da terna confluente dos nossos olhares Paris corria-lhe ao encontro Malgrado seu, na semana seguinte, inesperadamente, o raio do major apresentou melhoras.

Sarava, o patife! Uma miséria!

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Era costume dos tempos fazerem-se os médicos herdeiros dos clientes. Serviços pagos em caso de cura aí com centenas de mil-réis, em caso de morte reputavam-se em contos. Mediu prós e contras. Têm as ideias para escondê-las a caixa craniana, o couro cabeludo, a grenha; isso por cima; pela frente têm a mentira do olhar e a hipocrisia da boca. E vai nisso a pouca de felicidade existente neste mundo sublunar.

Fosse possível ler nos cérebros claro como se lê no papel e a humanidade crispar-se-ia de horror ante si própria Tudo é vida. Morrer é transitar de um estado para outro. Quem morre, transforma-se. Continua a viver inorganicamente, transmutado em gases e sais, ou organicamente, feito lucílias, necróforas e uma centena de outras vidinhas esvoaçantes.

Que importa para a universal harmonia das coisas esta ou aquela forma? A vida nasce da morte. Fiquemos por aqui. O atestado de óbito deu como causa mortis flegmatite complicada com necrose elipsodal. Os herdeiros impugnaram o pagamento. Move-se a traquitana da Justiça. Mói-se o palavreado tabelionesco.

Saem das estantes carunchosos trabucos romanos.

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Procede-se ao arbitramento. Mata o homem e ainda por cima quer ficar-se herdeiro! Que valha duzentos. Que valha um conto ou três. Mas trinta e cinco? No laudo, entretanto, acharam relativamente módico o pedido — sem dizer relativo ao quê. A Justiça engoliu aquele papel, gestou-o com outros ingredientes da praxe e, a cabo de prazos, partejou um monstrozinho chamado sentença, o qual obrigava o espólio a aliviar-se de trinta e cinco contos de réis em proveito do médico, mais as custas da esvurmadela forense.

O coleguismo: eis a nossa grande força! Criançada minha, ilusões, farofas que a idade cura Que mais? Que voou a Paris? É claro. Que cidade! Que povo! Vou diariamente à Sorbonne ouvir as lições do grande Doy en e opero em três hospitais. Em Paris! Na Sorbonne! Discípulo querido do Doy en, o grande, o imenso Doy en! Mostrou a carta aos médicos reconciliados. Daniel em seguida se recorda e compreende a sinistra mensagem de aviso de Schopenhauer: "Ninguém pode ver para além de si mesmo.

E o que Isabelle enxergou? Em suas próprias palavras, ela viu que, "quando você envelhecer, precisa pensar em confirmar e amansar as coisas. Você precisa ter em mente que algo de belo nos espera no céu". Uma coisa chamada "Estado" 67 Daniel precisou de 25 renascimentos sucessivos para notar: "As alegrias dos seres humanos permanecem incognoscíveis para nós neo-humanos. E, no entanto, vivemos. Avançamos vida afora, sem alegria e sem mistério. E se fez livre do futuro isto é, de renascimentos futuros de si mesmo.

Eu era Em outro lugar, talvez, certamente, em outro lugar Pelo menos o tipo de humanidade que todos nós, incluindo os escritores de distopias, conhecemos. É como o armistício que se segue às hostilidades, como uma regra que se julga estar muito aquém da felicidade imaginada, que era a paz pela qual se lutou. Outra característica definidora das utopias nos tempos de William Morris e durante quase um século depois é seu radicalismo. Atos, empreendimentos, meios e medidas podem ser chamados de "radicais" quando chegam às raízes de um problema, de um desafio, de uma tarefa.

O que essas três noções - raiz, fundamento e origem - têm em comum? Assim, se alguém pretende atingir a meta de pensar ou agir "radicalmente", esse tecido primeiro deve ser perfurado, jogado para fora do caminho ou desfeito. Alguém tem uma postura "radical" ao aceitar todas essas condições e se guiar por todas essas intenções e esses objetivos.

Na época de William Morris, as utopias tendiam a estar do lado "projetista". Quando elas se movem na Lebenswelt no mundo da vida , os embriões se transformam em demônios interiores.

Uma coisa chamada "Estado" 73 ram como partidos políticos "incompetentes, racistas e corrompidos", em todo o espectro no México, foi preenchida pelas Juntas de Buen Gobierno, os Conselhos de Bom Governo. Na verdade, o trabalhismo acabou por se tornar algo muito diferente daquilo que foi programado para ele em seus primeiros tempos, na verdade, diferente até de quando chegou ao poder, em O que deu errado?

Marshall reciclou o estado de espírito popular de seu tempo numa lei como mais tarde se revelou, ostensivamente universal do progresso humano: dos direitos de propriedade aos direitos políticos, e destes aos direitos sociais.

O "Estado de bem-estar" era um arranjo que eles viveram, de modo cada vez mais forte e perturbador, como uma gaiola. O apoio generalizado, "para além da esquerda e da direita", ao Estado social, visto por T. Marshall como o destino derradeiro 74 Vida a crédito da "lógica histórica dos direitos humanos", começou a encolher, a se desintegrar e desaparecer em velocidade acelerada.

Nada ou quase nada restou para distinguir a "esquerda" da "direita" em termos de política econômica ou de qualquer outra. Seguindo a linha de pensamento da Terceira Via, ser "de esquerda" significa ser capaz de fazer de modo mais profundo o trabalho que a "direita" demanda, mas fracassa em realizar corretamente.

Foi o Partido Socialista francês quem mais fez para o desmantelamento do Estado social na França. Cada vez mais, os sociais-democratas têm revelado uma incapacidade imprevista de cumprir suas promessas.

O Partido Democrata Italiano, ou, até onde se possa comparar, o polonês Lew ica i Democraci, LiD "Esquerda e Democracia" , exemplificam o destino a que conduz essa busca: total ausência de identidade e legitimidade.

Essa jóia do passado na coroa esquerdista foi derrubada pelos partidos erroneamente chamados de "esquerda". Ela foi lançada, por assim dizer, na rua - de onde foi prontamente Uma coisa chamada "Estado" 77 recolhida pelas forças de igual maneira e erroneamente chamadas de "direita". Contudo, você fez uma pergunta ainda mais fundamental.

A democracia moderna nasceu das necessidades e ambições de uma sociedade de produtores. Jerry Z. Hoje, porém, todo e qualquer Estado, em maior ou menor grau, digladia-se com uma espécie de "duplo vínculo", ou com lealdades divididas e muitas vezes antagônicas, embora entrelaçadas do ponto de vista funcional. Alguém se ocupar de "salvar o Estado" pelo bem da democracia?

A classe é apenas uma forma histórica de desigualdade. O poder parcialmente evaporou no ciberespaço, parcialmente fluiu para mercados asperamente apolíticos, e foi parcialmente "subsidiado" à força, "por decreto" como apoio à "política de vida" dos novos indivíduos "dotados de direitos" por decreto, mais uma vez. Até agora, pelo menos.

Confundir a atual política "internacional" mais bem-conhecida como "interestados" com uma inexisten- Uma coisa chamada "Estado" 85 te política global é apenas um expediente para legitimar e "naturalizar" a anarquia nos negócios eu refleti sobre esse divórcio no livro Em busca da política, e sobre suas conseqüências socioculturais em Vidas desperdiçadas.

De mais a mais, agora temos poder livre da política e política desprovida de poder. O capital industrial emigra para longe de seus locais de origem, o capital do setor de serviços traz imigrantes, o capital comercial viaja em todas as direções e por todos os lugares. Nesse processo, o multiculturalismo endêmico do planeta é tra- 86 Vida a crédito zido para casa, por assim dizer - despejado na localidade mais próxima. O fenecimento da esperança de "digerir" - converter e assimilar - os que chegam se transforma em outro "fator de estímulo" de sentimentos nacionalistas.

Mas, para retornar ao seu dilema: é possível salvar o Estado na forma atual? Ou, ainda, restaurar seu poder e sua glória do passado? Essas respostas foram dotadas de uma aura, transmitidas pelo mundo inteiro e reiteradas pela mídia. Elas realmente podem adquirir, em diversas mentes, veracidade ainda maior. Uma das implicações do seu trabalho parece ser corrija-me se eu estiver errada que nos afastamos da centralidade do Estado. Mas isso ocorreu realmente? Sei que eu estou!

Para além dos paradoxos descritos, podemos consolidar o Estado? E deveríamos fazê-lo? Permita-me especular ainda mais. Depois de tudo o que aconteceu a Ralph Miliband e Nicos Poulantzas além de seu caso de "amor e ódio" e Althusser, eles têm alguma relevância hoje?

Em suma, professor Bauman, "trazemos o Estado de volta", nós o reinventamos, ou paramos de acreditar nele? A esta altura, as condições foram muito alteradas: o Estado, assim como as demais invenções e produções humanas de que estamos sobrecarregados, opera hoje num mundo totalmente diferente daquele em que Ralph Miliband cruzou espadas com Nicos Poulantzas.

As duas juntas produzem em massa a "subclasse". Isso significa correr riscos enormes e sofrer com a angustiante incerteza que empreitadas como essas inevitavelmente incluem.

O medo que o Estado social prometeu extirpar retornou com uma vingança. A maioria de nós, da base ao topo da pirâmide social, hoje teme a ameaça, embora vaga, de ser excluído, de se provar inadequado para os desafios, de ser desprezado, de ter sua dignidade negada e humilhada. Dessa maneira, eles encarnam todos aqueles medos existenciais semiconscientes ou inconscientes que atormentam homens e mulheres numa sociedade líquida moderna.

Nem um pouco! O destino da liberdade e da democracia em cada país é decidido e resolvido em escala global. Só nesse plano as duas podem ser defendidas com uma chance real de sucesso duradouro.

Mas virar as costas é precisamente o que nós, na Europa e em outras terras afortunadas, parecemos fazer quando mantemos nossas riquezas e as multiplicamos à custa dos pobres de fora. E se, além de apenas acontecer, ela também trouxer efeitos concretos? Passei muito tempo a ponderar sobre a complexidade e as contradições de um conceito como esse por favor, perdoe minhas obsessões.

Num longo ensaio em espanhol, exploro a anatomia dessa estranha idéia que sempre me intrigou e fascinou, graças à sua "versatilidade".

Parecia que você tinha nos mostrado um dos melhores lugares para se buscar a soberania em nossos tempos. Algumas das implicações do que você escreve é que você identifica "fontes" mais realistas de soberania para nossos tempos. De fato, em sua abordagem, "o Estado é um executor da soberania do mercado". Aonde vamos a partir daqui?

Pelo menos, esta é uma das explicações admissíveis para a surpreendente carreira do fantasma de Carl Schmitt. Deuses que objetivassem interesses cruzados, assim como os homens; deuses cujas flechas podiam se desviar dos alvos nos quais foram mirados por flechas lançadas dos arcos de outras divindades arqueiras.

O Livro dejó reapresenta a terrível aleatoriedade da natureza sob a forma da arbitrariedade inspiradora de temor e tremor de seu governante. A onipotência de Deus inclui a licença para virar e revirar, para dizer uma coisa e fazer outra.

Deus pode atacar à vontade, e se ele se abstém de atacar, isso acontece apenas porque esse é o seu bom, benigno, benevolente, amoroso desejo. Para ser absoluto, o poder deve incluir o direito de negligenciar, suspender ou revogar a norma, ou seja, cometer atos que, do lado do receptor, soam como milagres. Como ele flagrantemente violou, uma a uma, todas as regras da aliança de Deus com seu "tesouro particular" entre as nações, o destino de Jó seria tudo menos incompreensível para os habitantes de um Estado moderno, concebido como um Rechtstaat.

Isso ia contra o que eles haviam sido treinados para acreditar, contra o significado das obrigações contratuais pelas quais suas vidas eram guiadas, e assim, também, contra a harmonia e a lógica da vida civilizada. A ordem deve ser estabelecida para que a ordem jurídica faça sentido. Tudo isso é confuso. Sem o Livro de Jó, o Êxodo deixaria de lançar as bases da onipotência de Deus e da obediência de Israel. Eis por que digo: é a mesma coisa! Ele extermina o íntegro e o ímpio" Jó, ; , Atreve-te a anular meu julgamento, ou a condenar-me, para ficares justificado?

As perguntas de Deus se antecipam às respostas concebíveis de Jó. Ele expôs a inutilidade dos esforços dos teólogos e fez chacota de seus pronunciamentos. Jó, que suplica, dizendo "Instruí-me e guardarei silêncio, fazei-me ver em que me equivoquei. Por que me tomas por alvo? E cheguei a ser um peso para ti? E ele sabia que seria assim: "Sei muito bem que assim é; poderia o homem justificar-se diante de Deus?

L Vida a crédito Uma coisa chamada "Estado" rio da norma. Mas tentar debater e negociar com a natureza "desencantada", na esperança de cair nas suas graças, é algo sem sentido. Os seres humanos assumiram o controle. L Vida a crédito cípio. Assim, esperava-se que as questões humanas se processassem no início da era moderna e ao longo de boa parte de sua história. E foi isso que Carl Schmitt encontrou no mundo em que nasceu e cresceu.

Suas promessas estavam em qualquer lugar, menos ao alcance dos Estados. Em sua roupagem de Estado "poderoso e racional" moderno, o Deus de Jerusalém se viu em Atenas, aquele barulhento playground de deuses travessos e intrigantes. O mundo povoado por Estados em busca de nações e nações em busca de Estados poderia ser politeísta e provavelmente permanecer assim por algum tempo ainda. Mas cada parte dele defenderia com unhas e dentes sua própria prerrogativa ao monoteísmo religioso e secular, ou os dois ao mesmo tempo, como no caso do nacionalismo moderno.

Gari Schmitt enxergou para além da futilidade dessas intenções. Em poucas palavras, identificar, separar, rotular e declarar guerra ao inimigo. Instituições do "Estado de bemestar" foram progressivamente reduzidas e eliminadas, enquanto as restrições antes impostas às atividades empresariais e sobre o livre jogo da concorrência no mercado, com suas terríveis conseqüências, foram suspensas, uma a uma.

A incapacidade para participar do jogo do mercado é cada vez mais criminalizada. Deixe-me trazer para o debate o problema dos direitos humanos. Você apenas tocou na Liga das Nações. O poder de indicar um inimigo ao alcance e o poder de atacar parecem ser a epítome da conveniência. Essa circunstância antevê algum mal para certas pessoas, ainda que exatamente para aqueles sobre quem se deixou ao soberano decidir.

Sessenta anos depois, ainda carece de suporte institucional regular, estabelecido. As saídas econômicas do pós-guerra logo tornaram essas estruturas e procedimentos inadequados para enfrentar e lidar com quanto mais para controlar e dirigir - os mercados de produtos, r Uma coisa chamada "Estado" finanças e trabalho, rapidamente globalizados. As duas realidades política e econômica atuavam cada vez mais em sentidos opostos.

Você sugere direitos humanos internacionais Em muitas de suas partes cruciais, ela foi, no entanto, com algumas outras funções ortodoxas do Estado moderno, delegada pelos governos a agências privadas comerciais. Para a maioria das empresas investigadas, apenas mudar o endereço registrado da sede para um endereço offshore parece ter sido suficiente para tornar nulos seus deveres legalmente previstos. O terrorismo global tira vantagem dessa conseqüência particular, em seus esforços para manter "o inimigo" em estado de constante alerta, financeiramente arruinado a longo prazo, como algo ameaçador para a segurança pessoal e, mais importante ainda, para as liberdades pessoais que os Estados modernos prometeram suprir e proteger.

Para Max Weber, os terroristas cosmopolitas seriam apenas mais uma força que, por sua presença, daria mais impulso ao imperativo perseguido e proclamado pelo Estado. Este é um exercício pertinente, ou corremos o risco de incorrer em paranóia? Mais que isso, os assassinatos em massa, que atingem proporções genocidas, acompanham de modo permanente a história humana até os nossos dias. Chamei essa atitude moderna de "postura de jardinagem": munidos de uma imagem da perfeita harmonia, os jardineiros arrancam certas plantas, chamando-as de ervas daninhas.

É arrancar pela raiz, envenenar ou queimar essas ervas que transforma o caos selvagem em ordem e harmonia. A "postura de jardinagem" é uma característica distintiva da atitude moderna e do ardor modernizante. A maior parte das utopias apresenta apenas o produto final do Grande Projeto, tornando-se um tanto taciturnas quando chega a hora de explicar a façanha de converter o projeto em Modernidade, pós-modernidade e genocídio realidade.

Dois fatídicos redirecionamentos tiveram lugar, no entanto, após o fim dos dois totalitarismos que experimentaram esticar até o limite o potencial sinistro da abordagem da moderna jardinagem. O primeiro foi o descrédito em que caíram os "Grandes Projetos", partilhando o terreno das "grandes metanarrativas".

Estava inscrito no "projeto da modernidade" desde o início, escrito originalmente em tinta invisível, que ficou cada vez mais perceptível à medida que se aqueceram as paixões modernizantes.

As políticas do Lebensraum chegaram a ser amplamente praticadas bem antes que os nazistas lhes dessem um nome e lhes colocassem um selo oficial. O expansionismo promovido por Hitler era baseado na idéia de ampliar o Lebesraum ariano pelo mundo todo. Na verdade, também foi entendida como um efeito "colateral": nem Vida a crédito um acontecimento importante o suficiente para ser prevenido, nem um fato a se lamentar em especial, caso aconteça.

Com muita freqüência, esse acidente culmina em mais uma guerra civil, disparando outra linha de iniciativas genocidas. De acordo com as estimativas mais comuns, os nazistas conseguiram aniquilar seis milhões de judeus ao todo, mas mantendo o objetivo de assassinar 11 milhões. Assim, na comunidade internacional, hoje, social sobre o Holocausto3 e a maneira segundo a qual as conclusões as políticas populacionais traçam seus caminhos sobre um paradigma científicas de Charles Darwin um século antes foram extrapoladas e que tende a opor crescimento econômico e crescimento populacio- seqüestradas por Hitler.

Mas gostaria de saber se o darwinismo so- nal. Ele tinha opiniões fortes sobre a "inferioridade ge- encruzilhada histórica nas previsões malthusianas? Milênio ,7 as grandes narrativas da comunidade internacional se es- De outro ângulo, o que podemos aprender com os padrões populacionais da modernidade a partir dos trabalhos de Thomas Malthus?

Para falar a verdade, nada na parte do mundo em que a profecia de Malthus foi concebida e contestada sugeria que a presença de mais pessoas levaria a menos bens disponíveis para a sobrevivência humana.

O grande era belo Grandes populações significavam grande potência. Grandes potências pressagiavam grandes anexações de terra, e um poder ainda maior prometia maiores aquisições de terra. Grandes conquistas territoriais significavam grande riqueza, e maiores conquistas significavam maiores riquezas. E a maior riqueza igualou-se à maior felicidade.

No final do século XIX, no entanto, outro axioma foi adicionado ao primeiro: "desbastar as multidões" exigia mais espaço espaço que viria a ser apelidado por Hitler, com sua crueza característica, de Lebensraum , e, graças a Deus, havia multidões para garantir mais espaço a ser conquistado e conservado. Após a Comuna de Paris, o exercício foi repetido, embora desta vez a Nova Caledônia tenha sido escolhida como destino.

Como Charles Darwin resumiu a saga do processo liderado pela Europa para "civilizar os selvagens": "Por onde os europeus trilharam, a morte parece perseguir os aborígines. Na melhor das hipóteses, seriam apresentadas como um dos estertores de formas pré-científicas, primitivas, irracionais e supersticiosas de resolver problemas. Um aspecto extremamente importante que você mencionou é digno de ser enfatizado mais uma vez, considerando que a hipocrisia é em especial insidiosa quando apoiada pelos interesses dos países que soam o alarme.

Parece que estamos mais próximos daquele "outro lado" agora do que jamais estivemos antes. Averroe parecia, de fato, destinado ao fracasso, pois queria "imaginar o que é um drama sem ter jamais suspeitado o que é um teatro". Averroe tinha de falhar tentando "imaginar o que é uma peça".

Da mesma maneira, a distopia de neo-humanos de Houellebecq tinha de falhar quando eles tentassem imaginar o que é sexo. Pelo menos o sexo como nós, os ancestrais de Daniel l, o conhecemos.

Mapeando-se seus pensamentos e suas ações, seria difícil distinguir Daniéis de Isabelles. Elas seriam felizes ao acordarem um dia na distopia de Houellebecq?

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Ou você preferiria, talvez, se ver como místico, ateu, agnóstico, gnóstico ou, na verdade, uma pessoa de fé? Se esse for o caso, permita-me, com todo o respeito, perguntar: você leva Deus para sua escrivaninha quando se senta para escrever? Convida-o para sua mesa de jantar? Em nosso conturbado século XXI, nessa nossa década que dolorosamente acaba, você gostaria que Ele fosse levado para a "mesa de negociações"? E, em caso afirmativo, quem estaria na sua lista de convidados, além dele?

Convidaria Maquiavel, trazendo de volta o gênio florentino? Se Maquiavel estivesse entre seus convidados, ele poderia, gélicos radicais e moderados, islâmicos, judeus e muitos mais?

Ou talvez, contribuir para a paz em nossa era? O projeto ecu- a limites radicais. Ou devemos na Terra". Para você, a "autoridade do sagrado" e, de modo mais genérico, "nossas preocupações com a eternidade e com valores eternos foram suas primeiras e mais preeminentes vítimas". Claro que os organismos religiosos e políticos competem pelo controle dos mesmos recursos e pelo domínio dos mesmos territórios.

Como marcas alternativas no mercado, disputam entre si os clientes, invocando o melhor serviço que podem oferecer para satisfazer as mesmas necessidades. Confrontada com esses problemas, a lógica humana corre o risco de falhar e ir a pique. A serviço da lógica, os seres humanos dispõem de pesquisadores e conselheiros devidamente credenciados.

Permita-me, enquanto tomo fôlego, especular mais ainda, à margem das questões acima. Rowan Williams, denunciaram em muitas ocasiões o impacto atual do que você tem chamado de "supremacia do individualismo". A palavra tratam como se fossem a fonte da vida". Permita-me ainda voltar às questões anteriores por outro ângulo. Os filósofos morais têm se esforçado, e seguem tentando, para construir uma ponte ligando as duas margens do rio da vida: o interesse individual e o bem do outro.

Fundamentalismo secular versus fundamentalismo religioso Entretanto, apesar de todos esses esforços, a evidência empírica acabou por se tornar difícil de aparecer - ou, no mínimo, manteve-se ambígua. Outras reservas ainda mais fundamentais foram elaboradas contra a hipótese dos filósofos, no entanto. A bondade pode ser ensinada?

VIDA LIQUIDA

Os argumentos a favor de respostas positivas e respostas negativas a essas questões têm avançado. Nenhum deles, entretanto, até agora obteve autoridade indiscutível. A palavra tem origem no estoicismo e no cinismo, movimentos filosóficos que floresceram na Grécia por volta de a.

A teologia medieval consagrou o conceito ligando-o a uma "neutralidade moral" de coisas e ações, consideradas externas à regra moral. Por exemplo, a voz de uma sarça ardente ouvida apenas por Moisés no Monte Sinai; o Paraíso e o Inferno, para serem vistos apenas pelos mortos; ou o Juízo Final, a ser vivido apenas na segunda vinda de Cristo, ou seja, no fim da história na Terra. Ele também conta com uma tentativa de se abraçar e incorporar a totalidade das funções da vida e a servir à totalidade das necessidades da vida.

Tento sugerir tocracia. O fundamentalismo se- 2 ainda mais popular do que James Watson. O debate aqui se dizer o mínimo. Tudo isso sugere que os seres humanos, no alvorecer deste sécu- abordagem de Venter leva a que se faça uma pergunta: a eugenia lo, parecem manter-se "presos" entre instituições seculares que mui- permanece uma ameaça, ou ela se tornou uma ameaça ainda maior tas vezes roubam e geram conhecimento científico com um projeto do que jamais foi. Existe uma saída? O desejo de intervir sobre os eus humanos na verdade, de criar um "novo homem" tem acompanhado o estilo moderno de vida desde o princípio.

Na crença do homem moderno, como sugeriu Karl Popper, em , a engenharia social é aquela que, "de acordo com os nossos objetivos, pode influenciar a história do homem assim como mudamos a face da Terra". Mais do que qualquer outra coisa, a engenharia social tem se destacado no extermínio de ervas daninhas humanas. Consideremos um exemplo improvisado. Você sabe o que significa "hipotricose dos cílios"?

A maioria das mulheres vive feliz sem saber a resposta. Por uma interessante coincidência, porém, o embelezamento do corpo também se tornou uma dessas preocupações humanas em que o surgimento do remédio em geral precede a consciência do defeito a ser remediado.

Primeiro veio a boa notícia: "Pode ser feito. Mas poucas mulheres fariam dessa deficiência uma tragédia. É possível viver com poucos cílios, sofrimento facilmente mitigado ou encoberto por algumas camadas de rimei.

Em ,11 milhões de cirurgias estéticas foram realizadas apenas nos Estados Unidos. Nenhum centímetro quadrado do corpo de uma mulher deve ser visto como algo inatingível para os aperfeiçoamentos. Na maioria do tempo, é um trabalho que, mais cedo ou mais tarde, tende a se transformar em tédio. A principal mensagem dos mercados consumidores, plena e verdadeiramente sua metamensagem a mensagem que sustenta e confere significado a todas as outras mensagens , é a indignidade de todo e qualquer desconforto e inconveniente.

Qual é a pergunta? Fazer-se à medida de seus sonhos, fazer-se segundo sua própria ordem: é isso, afinal, o que você sempre quis; só faltavam os meios de tornar seus sonhos realidade. Agora, de novo, você pode subtrair o esperar e o trabalho, e o tédio do querer - desta vez atingindo a fronteira final de todos os ímpetos de controle: o controle de seu próprio ser. Como Craig Venter sedutoramente expressou: "Ao inserir um novo cromossoma numa célula e ao eliminar o cromossoma ali existente", você pode jogar fora e esquecer "todas as características do original" e substituí-las por outras em tudo diferentes - e, desta vez, total e verdadeiramente a seu gosto.

O palco desse drama particular é moderno em todos os sentidos. A modernidade, permita-me repetir, se refere a como ajustar o "é" do mundo ao "deveria" feito pelo homem. Pascal com freqüência é citado em seu trabalho. Quatro anos depois, em setembro de , cientistas reunidos em Genebra lançaram um experimento para recriar as condições do Universo instantes depois do big bang.

Em matéria escura e a procura de buracos negros. As instituições científicas e os cientistas, outrora cente invocar Richard P. Permita-me agora passar a um contexto mais amplo, mas também relevante: o chamado "caso Alan Sokal", a disputa em torno do pós-modernismo e do conhecimento científico entre Sokal cientista da Universidade de Nova York e alguns cientistas sociais.

E, concluindo: é possível separar as instituições científicas das estruturas de poder externas à comunidade científica? Podemos abordar a ciência ignorando suas ligações com o mundo corporativo?

Teria chegado a hora de escrever sobre a "ciência líquida"? Nos meus 60 anos de improvisos na sociologia, tive bastante tempo para me acostumar com um dilema semelhante.

Em geral, me satisfaço com o fato de que, na sociologia, temos desenvolvido e continuamos a desenvolver duas redes conceituais frouxamente ligadas: uma serve relativamente bem para descrever o que como e por quê acontece no nível dos encontros humanos - parcerias, famílias, bairros, atrações e repulsões interpessoais, amizade e inimizade; outra descreve o que como e por quê acontece no nível global das condições sociais sob as quais todas as relações humanas se atam ou se rompem.

Essa é, admito, uma resposta muito preliminar. Até agora, a ciência tem merecido o lugar ou foi colocada no lugar de "numinoso" sugerido por Rudolf Otto "numinoso" é um mistério, mysterium, do latim, isto é, ao mesmo tempo aterrador, tremendum, e fascinante, fascinam.

Essa é uma qualidade intrinsecamente ambígua, que alimenta de modo adequado sentimentos ambivalentes. A história da ciência também é uma longa trilha de descobertas e invenções incompreensíveis, um cemitério de erros, equívocos e falsas pistas.

Invocando, como faz muitas vezes, a obra de Erich Fromm, você claramente se recusa a se render à liquidez do amor contemporâneo. Simplificando, você afirma que "amar significa estar determinado a partilhar e mesclar duas biografias"; e segue acrescentando que "o amor é parente da transcendência.

Outro mundo é possível para nossos filhos? Qual é seu legado para as gerações futuras? O treinamento inicial e fundamental na arte de amar e ser amado é recebido por todos nós na infância. As primeiras lições derivadas deste relacionamento amoroso íntimo tendem a pré-formar toda a rede de inter-relações humanas. Nenhuma ajuda veio dos mais velhos. Exigia uma troca de discursos, com questionamentos que extorquiam admissões e confidencias que iam além das questões formuladas.

Implicava proximidade física e partilha de pensamentos e emoções. Em suma, o exato oposto dos efeitos das campanhas do passado. O primeiro medo resultou num aumento do poder parental, mas também induziu os adultos a reconhecerem sua responsabilidade com e pelos jovens, e a cumprirem os deveres dela oriundos. O novo medo libera os adultos de seus deveres, substituindo a responsabilidade pelo perigo do abuso de poder. Nem existe exigência de se esperar um tempo longo, por vezes eterno, para que todos esses esforços dêem frutos.

Isso significa, porém, que se foram todas as coisas que costumavam fazer de Vida a crédito um encontro sexual um evento encorajador, porque incerto, e de buscar tal evento uma aventura romântica, pois arriscada, cheia de desafios, surpresas e armadilhas - mas também de estimulantes possibilidades e perspectivas cintilantes.

Algo foi perdido. Ainda assim, ouvem-se muitos homens e também muitas mulheres dizendo que aquilo que se ganhou vale o sacrifício. Essa mensagem é doce e tranquilizadora para ouvidos treinados por milhões de comerciais cada um de nós é forçado ou levado a assistir mais comerciais em menos de um ano do que nossos avós conseguiram ver na vida inteira.

Grande quantidade foi adquirida com o sacrifício da qualidade.

Ligações estabelecidas com a ajuda da internet tendem a ser mais fracas e mais superficiais do que as laboriosamente construídas na vida real, "off-line". Esses sofredores procuram fugir desesperadamente dessa dor. Transpô-los só pode afetar o significado dos conceitos transportados e as respostas comportamentais que evocam e potencializam.

O mundo da vida é a esfera privada na qual os atores compreendem as outras esferas do sistema social por meio do processo comunicativo. O volume de informações produzido para circular na web agora cresce exponencialmente. Comunicar-se com cabeças semelhantes on-line é uma das principais motivações das "redes sociais". As crianças da Dinamarca ingressam na escola numa série identificada como "série O" aos 6 anos.

Em outras palavras, "pertencer" a uma comunidade virtual reduz-se a interações intermitentes e muitas vezes superficiais, girando em torno de questões hoje de interesse comum. No mundo on-line, as complicadas traduções, negociações e compromissos podem, no entanto, ser evitados, pela graça salvadora da tecla "delete". É com essa ressalva em mente que falamos de todos os nossos contemporâneos, exceto os mais velhos entre nós, como pertencentes a três gerações sucessivas e distintivas.

Mas eles abraçaram de bom grado a oferta de empregos, de repente abundantes, como um presente de boa sorte que podia ser retirado a qualquer momento. Eles trabalharam muito, pouparam tostões para os dias ruins e deram a seus filhos a oportunidade de uma vida livre de problemas que eles próprios nunca tiveram. Uni mundo de emprego em abundância, de escolhas em aparência infinitas, muitíssimas oportunidades a serem apreciadas, cada uma mais atraente que a outra, e prazeres a serem provados, cada qual mais sedutor que o outro.

Se fossem pressionados a justificar essa negligência, eles responderiam com falas como as seguintes: "Trabalho? Stavenhagen e D. Iturralde orgs. A review of the WorkTs Bank economic growth in the 's: learning from a decade of reforms" Journal of Economic Literature, vol. BBC, 12 fev BBC, 26 fev Ver D. A FAO advertiu que "a crise silenciosa da fome, afetando um sexto de toda a humanidade, é um risco grave para a Vida a crédito paz e a segurança no mundo". Ver: www. Ver também: La Jornada, 28 jan Exemplo disso pode ser encontrado nos escritos de J.

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