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Capa de Tracy Walker. Terreiros, pessoas, assentamentos, pedras, colares, vasos, buracos: cada qual constitui um território existencial intensivo, composto e atravessado por uma série de forças. Capa de A. O abolicionismo. Ela diz ser vidente e finge estar apaixonada só para levar o dinheiro do rapaz, que imagina ser um homem rico. Assim foi temperando o aço. Com pouquíssimas rasuras. Films para Impressora Voltar Voltar. Kafka: por uma literatura menor. Praga: Literarni Klub Maj, IV, Capa de Natanael Longo de Oliveira. Nova Goa, Imprensa Nacional, A torrente de ferro. Foto da capa de Vloo-G. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 18, n. Capa de Opalworks e Getty Images. Ibadan, Nigeria. Isso porque ser aprendiz, tanto na arte dos ferros quanto na arte dos feitiços, significava uma coisa completamente diferente daquilo que inicialmente era esperado por mim. Log In Sign Up.

A narrativa começa com a prostituta Benedita, que, depois de longa ausência, aparece com um bebê nos braços e, antes de desaparecer de novo, entrega-o. Leia uma amostra grátis ou compre "O compadre de Ogum" de Jorge Amado. Para baixar da iTunes Store, obtenha o iTunes agora. Já tem o. Baixar Filme O Compadre De Ogum Gratis 3deko.info [refro] eu no seria nada se no fosse ogum para abrir a minha estrada [2x]. PDF - O Compadre de Ogum nenhum amigo, Massu consulta os orixás, e o próprio Ogum decide ser o padrinho. Baixe para iPhone Baixe para Android. Inicialmente parte do livro Os Pastores da Noite, a história de O Compadre de Ogum se concentra no batizado do menino Felício por um orixá.

O preto-velho acalma, o caboclo arrebata. O preto-velho contempla, reflete, assente, recolhe-se na imobilidade de sua velhice e de seu passado escravo; o caboclo mexe-se, intriga, canta e dança como o guerreiro livre que um dia foi.

Os caboclos fumam charuto e os preto-velhos, cachimbo; todas as entidades da umbanda fumam — a fumaça e seu uso ritual marcam a herança indígena da umbanda, aliança constitutiva com o passado do solo brasileiro. Freqüentemente usam cocares vistosos, calças e saiotes e raramente se assemelham aos verdadeiros indígenas brasileiros. Alguns deles têm nomes de personagens indígenas da história, do folclore e da literatura.

Veste-se como o sertanejo, com roupas e chapéu de couro, e cumpre um papel ritual muito semelhante aos caboclos índios que se cobrem de vistosos cocares. Fazem o "descarrego" com chicotes, laços e berrantes. Gostam de "meladinha", cachaça com mel de abelha, mas também bebem vinho. Fumam cigarro, cigarro de palha e charutos. De voz grave, é difícil entender o que falam.

Supõe-se que os boiadeiros trazem lições do tempo onde o respeito aos mais velhos, a natureza, a família e aos animais falavam mais alto. Quando o médium é mulher, o boiadeiro pede para que seja colocado um pano colorido, bem apertado, para disfarçar os seios. Quando incorporados, costumam falar "portunhol", dançam e tocam castanholas e pandeiros. Alguns exus e pombagiras também se apresentam como ciganos e ciganas.

Sua mensagem é que se pode lutar e desbravar o desconhecido, do nosso interior ou do mundo que nos rodeia com fé, confiança e trabalho em grupo. A gira de marinheiro e alegre e descontraída. A marujada coloca seus bonés e, enquanto trabalham, cantam, fumam charuto, cigarro ou cigarrilha e bebem uísque, vodka, vinho e cachaça. Recebem oferendas na orla do mar, em lugar seco sobre a areia. Baianos e baianas têm a aparência de caboclos e pretos-velhos, mas se comportam como exus e pombagiras.

O COMPADRE DE OGUM – – Grupo Companhia das Letras

Entrar nelas é entrar em uma mente, em uma sensibilidade específica: é entrar no fluxo que se seguiu de todas as casas e de todo compósito de relações que ali se desenrolou e se desenrola. Isso porque a casa é também o corpo do ancestral, reinstalado nessa forma. No candomblé, a casa, tal qual a pessoa, é concebida como um território a ser ocupado por uma multiplicidade de forças cf. Ao entrar em um terreiro, cada um deixa um pouco de si ali — e, ao mesmo tempo, leva consigo um pouco dos outros.

É nesse sentido que podemos mais uma vez voltar a uma das acepções possíveis para a palavra axé. Por outro lado, como lembra o autor ibid. Cada casa possui sua raiz, uma espécie de linha genealógica, ou matriz espaço- temporal, da qual ela faz parte.

Invocar a terra é, portanto, movimentar e reverenciar essa própria força. A terra, uma vez feita, torna-se uma espécie de ancestral do terreiro42, um centro energético comum a todos os da casa. Antes, trata-se de um engate bem específico, que envolve pequenas passagens, frestas e transformações. O geógrafo Milton Santos vai sugerir que existem dois modelos de se relacionar com o território. O candomblé, se quisermos, poderia ser pensado enquanto um modo de habitar o território, concebendo-o como abrigo de distintas forças e fluxos.

Terreiros, pessoas, assentamentos, pedras, colares, vasos, buracos: cada qual constitui um território existencial intensivo, composto e atravessado por uma série de forças.

A casa de Detinha foi composta por uma série de agenciamentos que envolveram conexões com diversos lugares, deuses e coisas. Assim, se a casa pode ser pensada como um compósito de relações, essas relações atravessam a própria topologia das forças, que se organizam de modo relacional no terreiro.

Ele garante que a casa esteja protegida dos perigos presentes na rua, para que, assim, tudo possa correr bem.

Lembro-me, por exemplo, de um samba de exu realizado na Casa de Detinha certa vez. Santos ; Bastide ; Goldman Um se encontra o mais afastado possível do outro, dentro dos limites territoriais do terreiro Todos prontamente entramos na casa, cuidando de fechar as portas e as janelas. Só Zé Diabo ficou do lado de fora, e foi ao assentamento ver o que estava se passando. Ao mesmo tempo, é uma energia com a qual todos devemos lidar, e que, se bem canalizada, incrementa a força da pessoa e do terreiro.

É por isso que, em geral, se assenta eguns em uma casa de candomblé. Antes de começarmos, porém, havia uma dificuldade: encontrar um local adequado para assentar os eguns. Xangô, por exemplo, em sua qualidade de Aganju, torna-se uma divindade mais próxima dos eguns. Um egum pode ser um ancestral pertencente à linhagem genealógica da pessoa , um morto, uma energia ancestral genérica ou mesmo um espírito qualquer, que pode rondar entre o mundo dos vivos.

Nesse plano, exus e eguns podem por vezes até se confundir. Assim, no episódio do espírito que apareceu na casa de Detinha, uma das precauções tomadas foi verificar se a vela posta na porta para Exu estava acessa.

Night Shepherds

Os pejis, tal qual a casa, também tornam-se entes vivos ao serem feitos, e por isso também passam a comer através de uma série de rituais.

É para essa topologia dos pejis e seus santos que nos voltaremos agora. Depois, seguem os exus do marido de Detinha, de seus filhos e de alguns participantes da casa. Cada entidade possui um nome próprio, publicamente conhecido por todos do terreiro, cada qual com suas próprias cantigas, atuações e particularidades: Tranca-Rua, Tiriri, Gira-Mundo, Maria Molambo, Sete Saias, Maria Padilha das almas etc.

Boiadeiro, entidade que acompanha Detinha, se destaca ao centro do peji, encimado por uma grande pedra sobre a bancada de alvenaria. Ao mesmo tempo, ao entrar no peji, o adepto se abaixa, prostando-se diante do assentamento, que se impõe sobre seu corpo. Cada assentamento é disposto de modo a fazer parte de um fluxo de relações entre ele e os demais, fluxo este regido por uma série de agenciamentos e sobreposições de linhas de força. Ali cada detalhe importa, cria agenciamentos específicos com determinadas forças e atua de modo particular no mundo.

A partir dele, toda uma história de vínculos, trocas e cuidado é composta — história que visa aumentar a existência tanto da pessoa quanto do santo e, logo, da própria casa na qual ambos se vinculam. Augras Cada entidade pode possuir seu próprio assentamento e, consequentemente, uma pessoa pode possuir diversos assentamentos. Se quiséssemos, poderíamos questionar a própria ideia de um modelo abstrato de pessoa subjacente às religiões de matriz-africana, onde o ser é antes um devir de distintas forças e suas composições.

Porque é exu que vai dar caminho, que vai abrir as portas. Essa troca, no entanto, parte da própria entidade e seu desejo de ser assentada. Pode acontecer também que algum acontecimento, sonho ou algum outro tipo de aviso indique que o santo deva ser assentado.

Ela interpretou aquilo como um sinal da entidade, sinal que depois foi confirmado através do jogo.

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A pessoa também pode herdar um assentamento de outra em geral, pessoas ligadas por vínculos de parentesco, de sangue ou de santo. No entanto, no pequeno vilarejo de Caxixi, suas chances reais de ir para um grande clube baiano seriam quase nulas, apesar da destreza técnica apresentada pelo garoto — que pude presenciar ao participar de uma partida de futebol de rua com ele e seus amigos.

Isso o motivou, em seguida, a 62 Miriam Rabelo narra as diferentes trajetórias percorridas pelos adeptos até serem iniciados no candomblé. A história de Jamile, por sua vez, foi um tanto diferente.

Catálogo de acervo de documentos by Fundação Casa de Jorge Amado - Issuu

Só depois disso pudemos nos sentar e conversar com Jamile, que explicou sua história. Era a Padilha, escrava de seu santo, Oxumarê. Depois que seu pai faleceu, seus familiares descobriram que, em vida, ele havia mantido um assentamento de Caboclo escondido no quintal de sua casa. Sem saber o que fazer, Roberto entregou o assentamento para seu primo, que era do candomblé e saberia cuidar do Caboclo melhor do que ele.

Depois de alguns anos, no entanto, seu primo também acabou falecendo, e o assentamento ficou novamente sem cuidados. Roberto até tentou deixar o assentamento em algum terreiro de Candomblé da cidade que morava, mas todas as vezes que cogitava fazê-lo, algo de ruim acontecia em sua vida, alertando-o que o Caboclo queria ficar em sua casa.

Goldman Como parte da pessoa, manipular um assentamento é manipular as próprias forças que compõem a pessoa. O arqueólogo Benjamin Alberti , estudando vasos cerâmicos antropomórficos datados do primeiro milênio d. Assim, segundo ele: Marking the body of the pot can be seen as equivalent to marking the body of the living, and not a representation of that act. Assim, intervir na matéria da cerâmica é intervir na própria instabilidade do corpo da pessoa. Por isso, para que se mantenham vivas, as cerâmicas deveriam ser constantemente tratadas, marcadas, transformadas.

Concluindo, ele vai nos dizer que: transformability is constitutive of notions of bodies and not a thing that occurs or is done to a stable, self-evident body that is subsequently transformed.

Pots and other materials are not separate, durable things of the world that simply add stability or are tools for transformation, but are part of the fabric of the world. If matter is considered unstable, then so too are pots. Their fantastical forms are specific instances of intervening in the world, not a representation of it. Cada assentamento possui uma forma específica de ser feito, e, com isso, uma matéria-prima, uma insígnia, um formato e, em suma, um modo de existência próprio.

Xangô, por sua vez, tem o vermelho como sua cor característica. Acender um cigarro para exu é, como me disse certa vez Detinha, se comunicar diretamente com a entidade, fazendo com que ela fale. O Ogum do filho de Detinha é um dos assentamentos mais robustos da casa. Ele é todo feito de ferro, desde o alguidar até sua ferramenta. Por conta disso, ele é sustentado por dois pedaços de trilho, além de ser rodeado por sete grandes parafusos enferrujados, retirados de ferrovias.

Em cima deste conjunto repousa uma coroa de cobre que leva um de seus maiores símbolos, o oxê, um machado de dois gumes.

É um santo mais velho que os demais — que exige, portanto, mais cuidado. Corpos sobre corpos, os assentamentos compõem o sistema relacional do terreiro, seus laços e territórios, suas diferenças e multiplicidades.

É por isso que pouquíssimas pessoas podem manipular e até mesmo ver tais pedras Sansi Arnaud Halloy , a esse respeito, nos conta sobre um episódio tragicômico que ocorreu no início de seu trabalho de campo, em Recife. Sansi ; Halloy ; Anjos ; Rabelo e Goldman Barbosa Neto , por sua vez, vai falar que os batuqueiros distinguem as pedras entre mortas e vivas, quentes e frias.

Essa força se faz presente na expressividade mesma da pedra: em suas cores, seu formato, suas texturas, seus locais de origem. Ele me disse: É o exu que pede, na rua, depende. Você vai andando e daí um belo dia encontra uma pedra que te toca.

Aí o exu logo trata de dizer: leva, é essa mesmo. Sansi ; Goldman , indicando, com isso, seu desejo de ser feito, assentado. Menos de 48 horas depois, tratores e retroescavadeiras invadiram o local, derrubando suas paredes, portas e janelas. Ao olhar para a pedra, Zé logo a reconheceu em meio aos tantos escombros. O encontro com a pedra, no decorrer do dia, foi tema das conversas de todos na Ladeira que, indignados com a truculência do Estado, viram nela um sinal de que as coisas poderiam melhorar.

Zé guardou a pedra em sua oficina, alegando que mais tarde a prepararia em sua própria casa e, se as coisas saíssem como o esperado, logo todos teriam que dar comida para aquele Xangô. A casa ficava em uma cidade distante alguns quilômetros de Salvador, na entrada do recôncavo baiano.

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Caminhamos a pé por cerca de vinte minutos, entre a mata e a estrada de ferro, carregando as sacolas com as oferendas. No caminho de volta, percebi que Zé e Detinha pegavam algumas pedras durante o caminho. Perguntei, um tanto inocentemente, por que faziam aquilo. Zé, percebendo minha topada, deu uma risada, e me pediu para pegar a tal pedra para ele. Era uma pedra redonda, lisa e branca. Peguei a pedra e a guardei na sacola, junto com as demais que eles haviam pego.

Eu, apreensivo, ensaiei recusar sua proposta, mas algo em mim me dizia para levar a pedra. Naquela época, Detinha tinha acabado de romper definitivamente com seu antigo pai-de-santo, após uma série de desentendimentos entre os dois. Este foi o caso, como vimos, da história de Detinha: foi somente após o rompimento com seu antigo pai-de-santo que ela decidiu fundar seu próprio axé. Esse rompimento causou uma série de conflitos — que se estenderam durante todo o período que permaneci em campo, ganhando novas facetas, elementos, pessoas e situações.

E era para isso, pois, que Zé Diabo havia sido chamado aquele dia na casa de Detinha. Quando chegamos à casa de Detinha, o casal de exus que ela havia conseguido trazer da casa de seu antigo pai-de-santo estava guardado junto com o assentamento de Boiadeiro num pequeno barraco de madeira improvisado no quintal. Na medida em que eles iam quebrando a massa, os elementos eram cuidadosamente retirados e separados em um canto. Dirigi até uma estrada próxima, que cruzava com a rodovia principal.

Depois disso, uma garrafa de cachaça foi aberta e derramada três vezes sobre a estrada, deixando o resto ao lado do despacho, para Exu. Novos vasos e caqueiros foram comprados, assim como arranjados os diversos elementos que iriam compor cada assentamento.

Depois disso, começamos a fazer a massa do assentamento. Cada material ia compondo a força do assentamento, incrementando assim sua existência. Perguntei a Zé, mais tarde, se todo assentamento tinha necessariamente todos aqueles elementos que foram colocados. Dois terços do vaso foram preenchidos pela massa onde, depois, o Exu foi plantado, tendo sua base fincada na massa.

Enquanto isso, alguns outros elementos como moedas, sementes, folhas, olho-de- boi, dentre outros foram jogados em cima do conjunto. Depois disso, Zé invocou algumas palavras e derramou, sobre o assentamento, um pouco de cachaça, azeite de dendê, sal e mel. Por fim, o obi, ao cair com as duas metades viradas para cima, confirmou que a entidade havia aceitado o ritual.

O axé, enquanto força, precisa se movimentar constantemente. Em certo sentido, tudo pode, em potencial69, transmitir axé, atualizando forças que, em estado virtual, constituem as coisas E o axé fica aonde? Deixo aqui, no entanto, algumas breves reflexões para pensarmos no assunto.

Para que as coisas permaneçam vivas no candomblé, é preciso que elas estejam em constante movimento: que elas sejam alimentadas, cuidadas, movimentadas. Pois humanos, deuses e animais compartilham de uma mesma força, e é ela que é celebrada e movimentada no ato do sacrifício.

E é por isso que ele pode servir para os fins mais diversos dentro do candomblé. Para entendermos melhor essas distintas relações, voltemos aos assentamentos e suas modulações rituais. Todo assentamento, depois de alguns dias de feitura, deve comer, ou seja, receber a oferenda de algum animal.

Zé negocia com cada divindade antes das obrigações. Exu sempre deve comer primeiro, antes que os demais. Cada animal é imolado de maneira específica, com cantigas e preceitos distintos, que variam conforme o animal e a divindade destinada. Depois disso, a cabeça do animal é colocada em frente ao assentamento, enquanto o corpo é retirado para que se possa separar suas partes.

Ao fim de três dias ou, em alguns casos, um a sete , o peji é novamente aberto para que a comida seja suspensa. O cheiro forte que exala dos alimentos putrificados é sinal de que a entidade comeu bem. Algumas partes, no entanto, ficam guardadas no terreiro, para serem utilizadas para outras finalidades rituais. Nada é desperdiçado no candomblé. Cada coisa no candomblé carrega mais ou menos axé, e essas manipulações visam, portanto, modular essas energias vitais, ora aumentando, ora diminuindo a existência de coisas e pessoas.

No entanto, remeto os leitores às ricas etnografias de Opipari , Halloy e Barbosa Neto , que se aprofundam de maneira mais sólida nessas questões. Ao longo do percurso, sua existência vai se alargando, em conjunto com sua força, que vai se estabilizando em cada elemento que compõe aquele arranjo muito peculiar de coisas.

O problema é que, como vimos, manipular um assentamento é manipular as próprias forças que compõem as pessoas que participaram de sua feitura.

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Renata e Vanessa conheceram Zé Diabo através de caminhos muito distintos, mas com uma trajetória em comum: ambas se ligaram a Zé a partir de trabalhos rituais. Durante o jogo, o santo de Renata manifestou o desejo de ser assentado ali, na casa de Zé, alegando que só desse modo ela seria curada. Pouco tempo depois, Zé acabou assentou o santo de Renata em sua casa — ato que, de fato, deixou-a curada logo em seguida.

Realizou alguns trabalhos rituais e, naquele período, sua padilha lhe disse, em sonho, que gostaria de ser assentada ali. Nestes casos, ele costuma indicar um outro terreiro, de alguém que ele possua ligações, para a pessoa assentar e cuidar de seus santos.

Seus assentamentos, no entanto, continuam ali.

Pastores da Noite

Este foi o caso, por exemplo, de Roberto, que herdou o Caboclo de seu pai, como relatado no capítulo anterior. Os objetos no candomblé, portanto, podem percorrer diferentes trajetórias, e essas trajetórias podem ser objeto de disputa.

Mas se as coisas podem ter agência, como afinal isso ocorre? Como vai dizer Ingold a, p. Ou seja, essas abordagens partem de um modelo hilemórfico, que pressupõe uma forma morphé impondo-se sobre uma matéria hyle , para pensar nas coisas e seus agenciamentos.

O Ogum de Zé Diabo, por exemplo, é um de seus santos mais fortes e importantes. Poderíamos dizer o mesmo sobre os outros materiais que compõem o mundo do candomblé. Tomemos como exemplo as quartinhas de barro. Elbein dos Santos Saber manejar e compor com esses elementos é fundamental para ativar certas relações, atingir determinados objetivos ou, ainda, incrementar sua própria força.

Outros lugares fora dos limites dos candomblés, argumenta o autor, também poderiam ser considerados sagrados, mas somente na medida em que se tornam um prolongamento exterior do terreiro ibid.

É o que propõe Edgar Barbosa Neto em sua tese de doutorado A cidade, desse modo, parece ser toda cartografada a partir das suas distintas forças e intensidades. Assim, para se assentar entidades ou fazer determinados trabalhos é preciso dialogar com as próprias variações temporais das forças. Barbosa Neto Isso porque essa força, o axé, atravessa esses distintos planos, constituindo deuses, pessoas e coisas. Bastide Essas comidas, como vimos, além de servirem de alimento para os deuses e poderem ser utilizados em ebós e oferendas, alimentam os próprios humanos, que compartilham com os deuses do axé de cada alimento.

Ainda assim, esse caminho pode mudar e, potencialmente, ela pode necessitar da feitura.

O que nos interessa, portanto, é como essas forças passam de um estado a outro, constituindo corpos e agindo sobre o mundo através de um cuidadoso e intermitente trabalho ritual.

É isso, em suma, que tentei explorar aqui: ao invés de se perguntar o que é tal força, trata-se de perguntar o que ela pode, com o quê ela se conecta e como ela se mantém. Schlanger , Segundo Leroi-Gourhan, cada matéria solicita determinados gestos e modos de relacionamento.

Tudo depende, mais uma vez, da forma como essa força é canalizada, com o que ela se conecta e como ela é feita O mesmo se pode dizer com todos esses outros elementos — cada coisa possui suas passagens, suas linhas de fuga que permitem transformar seus próprios modos de existência, alterando seus fluxos e forças. Ainda que esse percurso proposto por Halloy seja interessante para pensar as distintas transformações pelas quais as coisas passam no candomblé, algo da história contada por Goldman ainda permanece.

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De um simples pedaço de ferro icônico, a estatueta converteu-se numa divindade particular. Assim, se o candomblé, como pensa Bastide, opera por meio de uma série de classificações de seres e coisas segundo suas cores, formas, circunstâncias, etc. Trata-se, diz Jaco, de descobrir, na madeira, a forma que o seu estado actual oculta e que ele lhe deve devolver. Foi somente no fim do meu primeiro período de campo, após uma série de insistências e imprevistos, que Zé finalmente permitiu que eu forjasse, com sua ajuda, meu primeiro Exu.

Vai ajeitando com a tenaz e apoiando na bigorna, que aí ele vai seguindo pra onde você quiser. Aí com um tempo a gente vai se acostumando, e o ferro acostuma com nossa porrada também. Zé se comporta como um verdadeiro maestro nesta orquestra arranjada de ritmos, cadências, atividades, movimentos e energias distintas, improvisando e acionando movimentos no decorrer da atividade produtiva, seguindo, assim, as próprias linhas do metal.

Cabe ao ferreiro, portanto, compor com as distintas forças que atravessam seres e coisas. Simondon Espírito Santo Fazer, assim, é criar passagens por entre um mundo repleto de forças: agenciar, canalizar certas energias para certos objetivos, criando territórios existenciais compostos por distintas forças. Percorrer esse caminho é ser mais um pouco daquilo que sempre se foi.

Significa também — e principalmente — que muito trabalho experiência, jogo de cintura e habilidade é requerido para conduzir a feitura Rabelo Esse fazer, assim, poderia ser pensado enquanto um cultivo de relações, no sentido agroecológico mesmo. É preciso, nesses casos, testar outras possibilidades, compor outras forças. Mas o fazer só se aprende assim mesmo: fazendo. Essa arte, no entanto, poderia ser pensada enquanto potência de vida. A forma é o fim, a morte. O dar forma é vida, dizia Klee Meu primeiro encontro com ele98, carregado de silêncios, me despertou o desejo de estudar mais à fundo o tema das ferramentas de santo.

Foi assim que, meses depois, consegui uma bolsa de mobilidade acadêmica e voltei a Salvador, onde morei, primeiramente, por mais de um ano. Naquela época, ao chegar à cidade, demorei algum tempo até me ambientar e visitar novamente a oficina de Zé Diabo. Hoje, revivendo estas notas através da leitura do meu caderno de campo, percebi que, ao seguir o seu caminho, eu estava também construindo o meu próprio caminho, um percurso que passava necessariamente pelo aprendizado com os ferros, pelos caminhos de Ogum.

Ou, nas palavras de Zé, de algum modo o meu caminho havia se cruzado com o dele, fazendo com que eu também participasse do seu caminho. Ou seja, trata-se de seguir essas distintas feituras e seus caminhos, nessa arte de compor e descompor vidas. É com base nisso, portanto, que poderíamos reverberar esse sistema para pensarmos a própria etnografia. Ao seguir os caminhos de Zé, como vimos, construí meu próprio caminho; ou melhor, cruzei o meu caminho com o dele.

Por fim, esse arranjo é apenas um arranjo possível, a minha maneira de traduzir e agenciar o cruzamento desses caminhos. Trata-se, em suma, de traçar uma cartografia de seus agenciamentos, no sentido empregado por Deleuze e Guattari Antes, escrever é também, potencialmente, vir a ser — assumir o risco de colocar- se potencialmente num caminho outro, que passa a ser, também, o meu próprio caminho.

É como pegar o caminho de volta, capturar novamente o que do seu caminho ficou em mim. A etnografia, assim, é também uma forma de criar e agenciar mundos, cruzar caminhos, estabelecer vias a partir do encontro. Terça-feira: Após algum tempo me ambientando na cidade de Salvador, finalmente criei coragem para voltar à oficina de Zé Diabo. O medo e a ansiedade de um etnógrafo de primeira viagem tomavam conta do meu corpo. Havia ligado para ele dias antes e, por telefone, combinamos que aquele seria um bom dia para a visita.

Após ouvir de mim que só gostaria de conversar com Zé, esse senhor que acabou se tornando meu amigo depois, Raimundo me disse para procurar em algum dos bares que ficavam embaixo da ladeira. À princípio, ninguém sabia onde ele estava. Era Zé Diabo. Me aproximei e me re apresentei a ele que, ao menos, parecia ter lembrado de mim. Zé parecia visivelmente embriagado, falando alto e batucando na bancada do bar, enquanto os homens ao lado riam e faziam brincadeiras entre si.

As pessoas estranhavam minha presença al e vira e mexe uma ou outra tentava puxar assunto, perguntando de onde eu vinha e o que estava fazendo ali.

Após dar duas ou três baforadas em seu charuto, Zé parou seu olhar em mim. Seus olhos eram acinzentados e seu olhar muito profundo. Salvador, 13 de janeiro de No entanto, ao chegar à ladeira, percebo que a porta da oficina estava fechada.

Provavelmente ele estaria no bar de Dona Ana, ao lado, pensei. Evandro, marido de Dona Ana, me disse que Zé estava em sua oficina, provavelmente dormindo ou fumando seu charuto. Eu vou até a oficina e, depois de bater algumas vezes na porta e dizer quem eu era, escuto a voz de Zé Diabo me falando para entrar. Zé estava sentado no banco da oficina, fumando seu charuto.

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Nessas situações, qualquer tentativa de conversa costuma ser motivo para brincadeiras, frases de duplo-sentido, respostas ríspidas. Dessa vez, no entanto, havia algo diferente. Era a primeira vez, depois de todo esse tempo de convívio, que a entidade que habitava Zé Diabo finalmente me dissera seu nome. Overcoming the modern invention of material culture. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 14, n. Porto Alegre : Editora da Cidade.

Corpo e significado. Porto Alegre, pp. No território da linha cruzada: a cosmopolítica afro-brasileira. A Vida Social das Coisas. Rio de Janeiro: UFF, pp. O Duplo e a Metamorfose: a identidade mítica em comunidades nagô.

Petrópolis, RJ: Vozes. Tese de doutorado em Antropologia Social. Estudos Afro-Brasileiros. O Candomblé da Bahia: rito nagô. In: La notion de personne en Afrique Noire. Steps to an Ecology of Mind. New Jersey: Jason Aron Inc, Du Culte des dieux fétiches, ou Parallèle de l'ancienne religion de l'Egypte avec la religion actuelle de Nigritie. Genève, [s. In: Arthur Lindsay ed. Rio de Janeiro: Pallas. História geral da arte no Brasil.

The power of Silence: further lessons of don Juan. Washington: Washington Square Press. Pérolas Negras - Primeiros Fios. Le Rite Angola. Tese de Doutorado. Journal of Material Culture vol. De la préhistoire aux missiles balistiques. Paris: Éditions La Découverte. CRUZ, Robson. Rio de Janeiro: Museu Nacional.